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Com blackface, peça Trem de Minas estreia com polêmica de racismo em BH

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O ator Leosino Miranda Araújo, da dupla Leo e Leo, usa blackface para interpretar a personagem negra Justina em "Trem de Minas" - Foto: Divulgação

O ator Leosino Miranda Araújo, da dupla Leo e Leo, usa blackface para interpretar a personagem negra Justina em “Trem de Minas” – Foto: Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Um espetáculo teatral que estreia em Belo Horizonte nesta quinta (19) já chega com polêmica ao fazer uso do blackface, técnica racista quando um ator branco usa tinta preta no corpo para interpretar uma personagem negra estereotipada.

O blackface está presente no espetáculo “Trem de Minas”, que integra a 43ª Campanha de Popularização de Teatro e Dança realizada pelo Sinparc (Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais).

As apresentações estão agendadas para este fim de semana: de quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 19h, no Teatro Raul Belém Machado, no bairro Alípio de Melo, na capital mineira, espaço público gerido pela Prefeitura de Belo Horizonte.

Usada no século 19, quando negros eram proibidos de subir ao palco, e nas primeiras décadas do século 20, a técnica do blackface passou a ser condenada após o movimento negro conquistar direitos civis, sobretudo após os anos 1960 nos EUA, com a luta de nomes como Martin Luther King Jr.

Segundo Leonildo Miranda Araújo, produtor e ator da peça “Trem de Minas” ouvido pelo Blog do Arcanjo do UOL, a cena com blackface trata-se de “uma homenagem à raça negra” e “à minha mãe preta, Maria Tereza”, que, de acordo com seu relato, ajudou sua mãe a criá-lo e a seu irmão gêmeo, Leosino, com quem contracena na peça.

Leonildo afirma que a obra não é racista: “Não temos proposta de ofensa. Não temos nenhuma maldade nisso”[veja entrevista completa ao fim desta reportagem].

O espetáculo “Trem de Minas” chegou a ser divulgado na página cultural da própria Prefeitura de Belo Horizonte, BH Faz Cultura, com a foto da cena de blackface. A imagem foi trocada posteriormente.

Siote cultural da Prefeitura de Belo Horizonte divulgou a foto da cena de blackface na peça "Trem de Minas" - Foto: Reprodução

Siote cultural da Prefeitura de Belo Horizonte divulgou a foto da cena de blackface na peça “Trem de Minas” – Foto: Reprodução

A peça “Trem de Minas” é divulgada como “uma comédia sobre a cultura mineira”. A obra é produzida e interpretada pelos irmãos gêmeos Leosino e Leonildo Miranda Araújo, de 58 anos, conhecidos como Leo e Leo, naturais da cidade mineira do Serro.

Nela, com uso de blackface, Leosino dá vida à personagem negra Mãe Justina, que vive à beira do fogão de lenha e coa o café. Além de pintar o rosto com tinta preta, o ator usa meias pretas e também uma cobertura de tecido preto nos braços e luvas pretas nas mãos. Veja na foto abaixo:

Cena da personagem Justina coando café: técnica racista do blackface em cena na capital mineira - Foto: Divulgação

Cena da personagem Justina coando café: técnica racista do blackface em cena na capital mineira – Foto: Divulgação

Este não é o único espetáculo produzido pela dupla de gêmeos com uso do blackface.

Em novembro de 2016, Leo e Leo produziram o espetáculo “Contos Afro-Brasileiros”, apresentado no Centro Cultural Salgado Filho, em Belo Horizonte, com verba pública oriunda da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. Feita pelo projeto 1473/2015, a peça recebeu R$ 13.562,88 dos cofres públicos, segundo consta no Diário Oficial da PBH.

Na divulgação da peça, os irmãos contaram que a trilha seria feita com “tambor africano”. Veja, abaixo, a imagem de divulgação da obra.

leo leo contos afro-brasileiros

Imagem de divulgação do espetáculo “Contos Afro-Brasileiros”, com uso de blackface e de verba pública – Foto: Reprodução

“É uma homenagem à raça negra e à mãe preta”, diz ator

O Blog do Arcanjo do UOL conversou, por telefone, nesta quinta (19), com Leonildo Miranda Araújo, um dos atores e produtores de “Trem de Minas” ao lado do irmão gêmeo Leosino Miranda Araújo. Leonildo afirmou que não considera racista o uso de blackface nas peças que produz.

“Não temos proposta de ofensa, muito pelo contrário, fazemos uma homenagem à raça negra e à nossa mãe preta, Maria Tereza, que nos criou ao lado de nossa mãe, Maria das Dores”, disse.

Segundo Leonildo, as peças que produz com o irmão são “uma homenagem à diversidade”. Ele afirmou que os dois lançaram livros sobre a temática negra, como “Pretinho me Contou”, do seu irmão Leosino Miranda Araújo, e apresentam suas peças em escolas. E afirmou que manterá a cena com blackface.

“Trabalhamos com pesquisa e queremos homenagear a raça negra. Não temos nenhuma maldade. Isso [criticar o blackface na peça] é uma visão distorcida de quem não conhece nosso trabalho. Não vejo agressão nisso [em usar blackface]. Convido a quem não gostou para ver nosso espetáculo. Quem se sentir ofendido pode vir falar com a gente. Vários negros assistiram e gostaram”, afirmou.

A reportagem procurou também o Sinparc, responsável pela Campanha de Popularização do Teatro e Dança de BH na qual “Trem de Minas” integra a programação. A entidade enviou a seguinte nota:

“O Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais (Sinparc) acredita na liberdade de expressão. O ator possui vários recursos cênicos apropriados para o seu trabalho. Um deles é a caracterização de um personagem. Com isso, ele tem a liberdade de escolher o recurso mais adequado para o seu espetáculo. O sindicato lembra que as pessoas que se sentirem ofendidas ou desrespeitadas em algum espetáculo, podem entrar em contato com a ouvidoria da Campanha e, além disso, tem o direito de recorrer aos órgãos públicos que supervisionam as questões culturais.”

A reportagem também procurou a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, que não se manifestou até o momento.

“Não dá para aceitar blackface sob nenhuma circunstância”, diz professor da UFMG Marcos Alexandre

O Blog do Arcanjo do UOL pediu a Marcos Alexandre, professor dos cursos de Letras e Teatro da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), para analisar este caso. Veja a opinião do especialista:

“Acho triste o fato de continuarmos escutando ou lendo como resposta comentários que dizem realizar “uma homenagem à diversidade” ou “uma homenagem à raça negra”, ainda mais depois de todo debate realizado em 2015, pelo Itaú Cultural, depois da polêmica surgida com o espetáculo ‘A Mulher do Trem’, do coletivo Os Fofos Encenam.

Será que as pessoas do meio artístico não se interam das notícias ou as negligenciam? Não dá para aceitar o uso de blackface no teatro contemporâneo sob nenhuma circunstância. Como negro eu não me sinto representado.

Não posso questionar o trabalho porque não a vi a montagem, mas posso argumentar que é difícil ver os sujeitos negros sendo retratados em cena a partir de estereótipos que não tratam de seu lugares de enunciação e de fala.

Eu tenho as minhas dúvidas se xs negrxs, realmente, se veem de alguma maneira homenageados em propostas espetaculares que apenas reforçam tais estereótipos que aparecem desde o figurino, até as partituras físicas que buscam imitar trejeitos que alguns artistas julgam nos “representar”.

O diretor da companhia Os Fofos Encenam, Fernando Neves, em debate, teve a decência de pedir desculpas àqueles que se sentiram ofendidos por usar a técnica que remete ao blackface em seu espetáculo.

Seria muito importante que as pessoas entendessem de uma vez por todas que este não é o caminho adequado para se referir às corporeidades negras. De certa forma, os organizadores da 43ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança incorrem num erro semelhante ao dos organizadores do FIT. Se esses deixaram de fora do evento as textualidades negras; na campanha, o tema aparece sob esta lamentável forma de representação.”

Casos recentes de blackface

A polêmica em torno do uso da técnica do blackface nos palcos foi reacendida em São Paulo quando, em 2015, o espetáculo “A Mulher do Trem”, do grupo Os Fofos Encenam, pintaria um ator com tinta preta para que este pudesse interpretar uma empregada doméstica, como mostrou a foto de divulgação da peça.

A comunidade negra reagiu com veemência, e o Itaú Cultural decidiu cancelar a temporada após barulho na internet, propondo, no lugar da peça, um debate sobre racismo.

Na época, o diretor da montagem, Fernando Neves, anunciou que tiraria a cena de blackface de sua obra. No debate, ao ouvir da comunidade negra como o uso do blackface só reforça o racismo e estereótipos, Neves chorou e pediu perdão.

Casos recentes de blackface: Marco Nanini, Os Fofos Encenam, Paulo Gustavo e Leandro Melo geraram polêmcia e foram acusados de racismo - Fotos: Divulgação

Casos recentes de blackface, em sentido horário a partir do alto: Marco Nanini, Os Fofos Encenam, Paulo Gustavo e Leandro Melo geraram polêmica e acusações de racismo – Fotos: Divulgação

O ator Paulo Gustavo, do canal pago Multishow, também usou blackface em uma cena de seu humorístico “220 Volts”. Depois de reação negativa do público, ele pediu desculpas publicamente.

Outro que precisou se desculpar por pintar o rosto de preto foi o ator Leandro Melo, que surgiu utilizando a técnica do blackface em cartaz para divulgar o espetáculo sobre Madame Satã, “Satã, um Show para Madame”, apresentado no Rio em 2015. Na época, afirmou não ser racista.

O ator Marco Nanini também provocou polêmica e reação da comunidade negra ao surgir com o rosto pintado de preto em uma cena da novela “Êta Mundo Bom”, de Walcyr Carrasco, em 2016. Na época, o autor negou ser racista, mas manteve a cena, que foi ao ar na Globo.

Nota no colunista: Na época do escândalo por conta do blackface na peça “A Mulher do Trem” do grupo Os Fofos Encenam, a jornalista Eliane Brum, que acompanhou o debate sobre racismo que aconteceu no horário previsto para a peça no Itaú Cultural, em São Paulo,  escreveu um artigo sobre a temática. Merece ser lido com toda a calma do mundo.

Leonildo e Leosino em "Trem de Minas": peça com blackface faz temporada em BH a partir desta quinta (19) - Foto: Divulgação

Leonildo e Leosino em “Trem de Minas”: peça com blackface faz temporada em BH a partir desta quinta (19) – Foto: Divulgação

No site da dupla de produtores teatrais Leo e Leo, a cena com blackface também está em destaque - Foto: Reprodução

No site da dupla de produtores teatrais Leo e Leo, a cena com blackface também está em destaque – Foto: Reprodução

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista formado pela UFMG, pós-graduado na USP e mestrando em Artes na UNESP. É vice-presidente da APCA. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV UFMG, O Pasquim 21, TV Globo, Curso Abril de Jornalismo, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, R7, Record e Record News.

Sobre o blog

Da primeira fila aos bastidores dos grandes espetáculos e musicais, passando pelos festivais e encenações experimentais, o Blog do Arcanjo pretende falar com leveza e inteligência sobre tudo o que rola no mundo do teatro.

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