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Crítica: União do elenco é a força do musical Rent

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Myra Ruiz e Priscila Borges vivem um casal de lésbicas no musical que arrebata o público - Foto: Caio Gallucci

Myra Ruiz e Priscila Borges vivem um casal de lésbicas no musical que arrebata o público – Foto: Caio Gallucci

Por Miguel Arcanjo Prado

Após a liberação sexual nos anos 1960 e a vivência da utopia hippie na década de 1970, os anos 1980 representaram uma depressão na juventude, acuada por um capitalismo cada vez mais perverso e pela epidemia da Aids, que ceifou vidas no auge. Nova York, como o grande centro financeiro e cultural ocidental, vivenciou tudo isso de forma intensa.

É o que fica evidente em “Rent”, cujo foco é a juventude nova-iorquina da chamada “década perdida”. A montagem foge do estilo contos de fadas comum ao gênero, levando à cena a dureza da vida, embalada por rock.

A produção brasileira é feita em forma de resistência, como uma resposta à perseguição da cultura no campo político. Ao contrário de grandes musicais patrocinados, “Rent” é uma aposta de um grupo de atores-produtores, que resolveu que a história escrita por Jonathan Larson (1960-1996), que morreu pouco antes de sua estreia na Broadway, em 1996, precisava ser contada duas décadas depois nos palcos brasileiros – onde já teve uma versão em 1999.

Premiado com o Pulitzer e quatro prêmios Tony, o Oscar do teatro norte-americano, “Rent” é um musical que mostra um grupo de jovens que precisa lidar com as perdas e frustrações constantes, tragados pelo ambiente urbano e tendo como pano de fundo temas como o uso de drogas, a homossexualidade, o desemprego, o fracasso profissional e a Aids à espreita.

Bruno Narchi, que idealizou e protagoniza a montagem de "Rent" - Foto: Caio Gallucci

Bruno Narchi, que idealizou e protagoniza a montagem de “Rent” – Foto: Caio Gallucci

Sob direção de Susana Ribeiro, a nova versão tem na garra do elenco sua força principal, mesmo com descompassos técnicos, como microfones que demoram a serem abertos, prejudicando o começo de alguns solos.

André Cortez fez um cenário simplório e clean, no qual o maior destaque são as barracas típicas dos moradores de rua em Nova York – há quem sinta falta no cenário de mais referências aos arranha-céus, que são o cartão-postal da Big Apple e ajudariam a levar o público para aquele universo imagético da metrópole mundial.

A iluminação de Wagner Freire soa desintegrada do contexto da obra, muitas vezes perdida – em muitos solos, a luz segue aberta em todo o cenário, em vez de focar no ator-cantor em cena, o que acaba tirando força do número musical.

Falta também à direção dar ritmo à peça – uma solução simples seria utilizar mais o talentoso coro que dispõe – e um maior cuidado aos números musicais (em mais de um momento solistas cantam de costas para a plateia). A coreografia de Kátia Barros também carece de maior vigor e arroubo criativo, o que faria com que a encenação crescesse.

Desta forma, o primeiro ato é arrastado e o musical só ganha força quando este termina, justamente quando entra a personagem de Myra Ruiz, nova estrela do gênero e que protagonizou “Wicked” no ano passado. Assim, o musical só mostra mesmo ao que veio no segundo ato, infinitamente melhor que o primeiro.

Max Gracio e Diego Montez vivem casal gay em "Rent" que precisam encarar a Aids - Foto: Caio Gallucci

Max Grácio e Diego Montez: sintonia como o casal gay que enfrenta a Aids em “Rent” – Foto: Caio Gallucci

O elenco traz nomes que vêm se firmando no mercado de musicais brasileiros, como Bruno Narchi (que idealizou o projeto), Thiago Machado (que vem do papel de Faraó em “Os Dez Mandamentos”, no ano passado), Ingrid Gaigher e Priscila Borges, que faz um casal de lésbicas com Myra Ruiz, ambas arrebatando o público com a canção “Take Me Or Leave Me”.

Max Grácio, com sua voz grave e soturna, também compõe um par em sintonia com o leve Diego Montez, na pele da emblemática drag Angel, que sofre com o HIV. Ainda estão em cena Mauro Sousa, Bruno Sigrist, Lívia Graciano (que rouba a cena na pele de uma mendiga), Thuany Parente, Carol Botelho, Zuba Janaina, Bruno Sigrist, Arthur Berges, Philipe Azevedo, Felipe Domingues, Guilherme Leal e Kaíque Azarias. Cada qual defendendo com bravura sua personagem.

“Rent” é um musical necessário e que dialoga, e muito, com o cenário de crise no Brasil atual, onde muitos jovens estão tão perdidos quanto os nova-iorquinos por ele retratados. Seu maior mérito, nesta montagem, é provar, no palco e nos bastidores, que ainda funciona a união de amigos em torno da realização de um projeto em comum, reeditando o velho dito popular: “a união faz a força”.

“Rent” * * *
Avaliação:
Bom
Quando: Terça e Quarta, 21h. 150 min. Até 29/3/2017.
Onde: Teatro Frei Caneca – Shopping Frei Caneca – Rua Frei Caneca, 569, 7º andar, São Paulo, tel. 11 3472-2229
Quanto: R$ 100 a inteira e R$ 50 a meia
Classificação etária: 14 anos

Leia também: Geração dos anos 1980 ganha o palco em “Rent”

Siga Miguel Arcanjo Prado no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista formado pela UFMG, pós-graduado na USP e mestrando em Artes na UNESP. É vice-presidente da APCA. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV UFMG, O Pasquim 21, TV Globo, Curso Abril de Jornalismo, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, R7, Record e Record News.

Sobre o blog

Da primeira fila aos bastidores dos grandes espetáculos e musicais, passando pelos festivais e encenações experimentais, o Blog do Arcanjo pretende falar com leveza e inteligência sobre tudo o que rola no mundo do teatro.

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