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Crítica: Branco é um espetáculo racista confesso e sem remorso

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Sem negros no elenco, equipe de “Branco: O Cheiro do Lírio e do Formol” surge bronzeada na imagem de divulgação da peça – Foto: Andre Cherri

Por Miguel Arcanjo Prado

A baixa disposição do público em aplaudir ou mesmo ficar de pé ao fim de “Branco: O Cheiro do Lírio e do Formol”, apresentada na 4ª MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), reforça o insucesso desta obra. Até porque passou a ser norma do público paulistano aplaudir de forma efusiva de pé qualquer obra, independentemente de sua qualidade artística. Mesmo assim, nesta peça isso não acontece.

O espetáculo com texto de Alexandre Dal Farra é racista confesso.

Causa espanto que a curadoria da MITsp dê lugar a tal tipo de discurso justamente em um festival que se planteia interessado em pôr fim ao racismo, mas segue ignorando grupos e produções teatrais negras que se aprofundaram no tema no Brasil nos últimos tempos, falando das especificidades do negro brasileiro.

Contudo, a curadoria da MITsp escolheu programar entre os três espetáculos brasileiros da Mostra um que foque na visão de um branco racista sobre si mesmo, ignorando completamente o negro em cena e o seu discurso.

Egocentrismo

“Branco” é uma peça autocentrada e egocêntrica, na qual o dramaturgo problematiza sua incompetência em dialogar com o negro e abrir-se para a escuta. Muito pelo contrário, o dono do texto insiste em uma verborragia de psicanálise de botequim para tentar justificar o injustificável: a falta de espaço ao negro justamente em uma peça que soa oportunista para roubar do negro o lugar de fala e de discurso. E, claro, o cachê.

Se Alexandre Dal Farra e a equipe de “Branco”, cuja direção é assinada também pela atriz Janaina Leite, em cena ao lado dos atores André Capuano e Clayton Mariano, queriam realmente discutir o racismo, que começassem por abrir mão do privilégio de estar na grade de um festival tão renomado com uma peça tão confusa e problemática e cedessem o lugar (e o cachê) a um dos grupos negros que discutam com profundidade o racismo brasileiro e tanto lutam por um lugar de fala e por representatividade. Teria sido ético e louvável.

É aterrorizante que a curadoria da MITsp dê espaço a uma peça que faz de seu racismo uma elucubração cênica modorrenta e insuportável para brancos não racistas e, sobretudo, para os negros presentes. Será que uma peça que fizesse confissões antissemitas teria o mesmo nobre espaço?

É por isso que a obra soa como um deboche produzido de um lugar de conforto e de privilégio, e que atesta em sua própria presença em uma cena tão importante não querer abrir mão deste posto, preferindo ainda cometer a afronta de colocar o negro em cena de forma idealizada e estereotipada para questioná-lo ou ridicularizá-lo com frases pseudo-marxistas. É de uma arrogância mesquinha e cruel.

Sem negros

Sem nenhum negro em cena (porque dividir o cachê com negros justamente em uma peça que usa o sofrimento cotidiano destes parece não ter passado pela cabeça de seu criador), a peça revela em cena que trouxe “provocadores” (é importante, neste caso, observar a etimologia da palavra escolhida) negros ao longo do processo. E que preferiu não ouvi-los e seguir adiante, porque o ego de encenar o próprio racismo era maior.

É interessante notar que os negros escolhidos para a função de “provocadores” são artistas que já conquistaram lugar no mesmo sistema que, muitas vezes, referenda dramaturgias como esta, seja na universidade ou na própria categoria teatral. Ou seja, para serem consultados, tais negros, na visão da equipe da peça, precisaram antes do crivo cultural do branco, e mesmo assim não foram ouvidos.

Por que não ouvir (de verdade, não para fazer cena) negros da periferia ou militantes da causa negra e conhecer de perto suas questões? Já que deseja ganhar espaço de festivais confessando-se racista e não apresentando nenhuma possibilidade de mudar isso, e ainda ocupando um lugar que poderia ser de grupos negros, a equipe de “Branco” poderia começar por frequentar, por exemplo, as periferias negras ou, se não quiserem ir tão longe de ônibus ou trem, encontros da negritude na região central de São Paulo. E silenciar-se. E ouvir muito. Mas, muito mesmo. Seria um bom começo para que se possa acreditar em um intuito de troca dialética.

Racista e opressor

“Branco: O Cheiro do Lírio e do Formol” é um espetáculo que, por mais que se vista de signos pós-dramáticos, se concentra em elementos dramáticos psicologistas singulares de uma elite branca e heterossexual, onde o conflito que se apresenta é não suportar a existência do outro ou poder enxergá-lo somente após a sua morte, onde o diálogo se torna confortável devido à falta de réplica.

“Branco: O Cheiro do Lírio e do Formol” entra para a história do teatro brasileiro como símbolo do discurso do branco racista e opressor que não quer abrir mão de seu lugar de privilégio, que é ciente disso, nada faz a respeito, nem se preocupa ou sente remorso, por estar tão mergulhado em seu próprio umbigo. Uma pena.

“Branco – O Cheiro do Lírio e do Formol” *
Avaliação:
Fraco

Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista formado pela UFMG, pós-graduado na USP e mestrando em Artes na UNESP. É vice-presidente da APCA. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV UFMG, O Pasquim 21, TV Globo, Curso Abril de Jornalismo, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, R7, Record e Record News.

Sobre o blog

Da primeira fila aos bastidores dos grandes espetáculos e musicais, passando pelos festivais e encenações experimentais, o Blog do Arcanjo pretende falar com leveza e inteligência sobre tudo o que rola no mundo do teatro.

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