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Crítica: "O Musical Mamonas" chega perto da irreverência da banda

Miguel Arcanjo Prado

19/04/2016 17h00

Como na banda,

Como na banda, "O Musical Mamonas" é irreverente – Foto: Rodrigo Rosa/Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Parece que foi ontem. Mas, não. Já se foram 20 anos. Mesmo assim, a passagem do grupo musical Mamonas Assassinas pela cultura pop brasileira foi tão intensa que a presença dos meninos de Guarulhos ainda é perceptível.

Como se foram todos juntos, de repente e tão jovens, naquele terrível desastre aéreo, é como se, de certo modo, parte do público não houvesse aceitado a morte dos artistas. E isso é perceptível a quem assiste a "O Musical Mamonas", em cartaz no Teatro Raul Cortez, em São Paulo, com a trajetória da banda.

O espetáculo com dramaturgia de Walter Daguerre gasta boa parte do texto focando o tempo em que os meninos ainda eram meros desconhecidos fazendo rock no Parque Cecap, em Guarulhos, na Grande São Paulo, animando festas de condomínio, antes de virarem febre nacional e serem disputados pelos programas de TV.

O que a peça mostra é que, já naquela época, os integrantes carregavam consigo a espontaneidade que os tornaria conhecido nacionalmente em uma carreira apoteótica após o lançamento do primeiro disco do grupo que durou até a morte trágica.

Coro potente

Diretor experiente, José Possi Neto assume a função de dar forma a esta história. E o faz muito bem. Para estar bem calcado, convocou um coro técnico e talentoso para sustentar o quinteto no palco.

E é no coro potente que está um dos atores mais emblemáticos da peça: Patrick Amstaldem, cujo talento é revelado neste espetáculo ao grande público. Ator de preciso tempo cômico e que conquista o público a cada aparição, seja como um anjo ou como o produtor musical Rick Bonadio, Amstaldem é tão bom que, por pouco, não vira a alma do espetáculo, em vez do quinteto protagonista.

Ainda compõem o coro Bernardo Berro, que também se destaca com forte veia cômica, Maria Clara, Marco Azevedo, Rafael Aragão, Nina Sato, Vanessa Mello, Reginaldo Sama, André Padreca e Gabriela Germano.

Protagonistas entrosados

Mas vamos ao quinteto protagonista. Os cinco atores formam um conjunto harmonioso, como eram os cinco rapazes do Mamonas Assassinas, uma das bandas mais teatrais que o Brasil já teve. E, o principal: entrosados, repetem no palco aquela irreverência coletiva que o grupo sabia fazer como ninguém. Há vigor no palco.

Ruy Brissac, cuja semelhança com Dinho é de assombrar qualquer um, investe em uma presença espontânea e sexy ao mesmo tempo, como era a do vocalista. Sai do script muito bem, conquista o público com ousadia, fazendo-nos lembrar que Dinho tinha alto poder de improvisação bem antes da moda do stand-up.

Yudi Tamashiro, famoso por apresentar programa infantil no SBT e participar de reality na Record, é uma agradável descoberta: mostra-se um ator concentrado. E é um dos melhores bailarinos nas cenas musicais.

Elcio Bonazzi e Arthur Ienzura, como os irmãos Samuel e Sérgio, demonstram mais familiaridade com o universo dos musicais, sem contudo perder de vista seus personagens; estão ambos corretos e repletos de verossimilhança.

Mas isso é ainda mais potente em Adriano Tunes, como o tecladista Júlio, o que o faz se destacar. O ator menos parecido com o personagem real que interpreta é ao mesmo tempo o mais convincente, diante de sua atuação precisa, concentrada e presente.

Ritmo de musical

E Possi, como diretor, consegue segurar o ritmo do musical mesmo quando este se torna mais arrastado na parte final. Ao lado da sempre inventiva coreógrafa Vanessa Guillen, o diretor abusa de números da dança e, claro, dos musicais, com a banda sob a batuta do diretor musical Miguel Briamonte. Afinal, as canções dos Mamonas são hits emblemáticos dos anos 1990.

Mesmo em cenas que sobram no roteiro, como a viagem do grupo à Disney, Possi as aproveita para trazer a chanchada por onde caminha a peça de volta ao mundo dos musicais, com graça, leveza, canto, dança e ritmo — há até uma auto-homenagem do diretor em uma cena que faz referência a seu musical "New York, New York".

"O Musical Mamonas" é um espetáculo que dialoga de forma intensa com a realidade que o gerou, chegando perto daquela adorável irreverência dos Mamonas Assassinas. Diante do musical, e da real presença dos atores, dá saudade daqueles meninos de Guarulhos.

"O Musical Mamonas" * * * *
Avaliação: Muito bom
Quando: Sexta, 21h30; quinta e sábado, 21h; domingo, 19h. 120 min. Até 29/5/2016
Onde: Teatro Raul Cortez – R. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista – tel. 11 3254-1631
Quanto: R$ 120
Classificação etária: 12 anos

Quinteto está entrosado e lembra os rapazes de Guarulhos - Foto: Rodrigo Rosa/Divulgação

Quinteto está entrosado e lembra os rapazes de Guarulhos – Foto: Rodrigo Rosa/Divulgação

Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes Cênicas pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia e Band. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas de Cultura em Mídia Eletrônica do Brasil pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.