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Crítica: Conflitos da mulher negra empoderada são força de "Ida"

Miguel Arcanjo Prado

2011-06-20T16:12:53

11/06/2016 12h53

Verônica Santos e Aysha Nascimento em

Verônica Santos e Aysha Nascimento em "Ida", do Coletivo Negro – Foto: Wallace de Andrade

Por Miguel Arcanjo Prado

Neste começo de século 21, o Brasil viveu mudanças sociais perceptíveis, sobretudo em uma parcela social que por meio do estudo conseguiu ascender socialmente, ocupando novos lugares, como é o caso da população negra. O grupo paulistano Coletivo Negro se aproxima cada vez mais desta comunidade, que busca refletir sobre si mesma em suas peças.

Depois de abordar o homem negro em "Farinha com Açúcar", chega a vez de a mulher negra entrar em foco no espetáculo "Ida", sobre a mulher negra empoderada e seus conflitos. O espetáculo é um retrato poético e potente deste estrato social contemporâneo. Em cena, a intensa atriz paulista Aysha Nascimento e a bailarina mineira Verônica Santos, com um corpo longilíneo de movimentação precisa, dividem a personagem Ida.

Trata-se de uma jovem arquiteta negra, primeira a receber um diploma de curso superior na família e que se vê diante do conflito de desbravar novos lugares sem renegar sua ancestralidade diante de uma sociedade excludente, machista e racista. O conflito maior da personagem se dá quando, em seu primeiro emprego como arquiteta, lhe é pedido projetar um apartamento que contenha aqueles minúsculos quartos de empregada, que lhe remete à senzala, ao "Quarto de Despejo" tão bem definido pela escritora Carolina Maria de Jesus.

Peça mostra jovem arquiteta negra e seus conflitos - Foto: Wallace de Andrade

Peça mostra jovem arquiteta negra e seus conflitos – Foto: Wallace de Andrade

O diretor Flávio Rodrigues, com assistência de Maitê Freitas, tem a sensibilidade necessária para construir o espetáculo como um emaranhado psicológico da personagem, no qual o público mergulha para perceber o conflito presente entre o consciente e o inconsciente de Ida, entre o sim e o não tão difíceis de se alcançar.

O texto marca a estreia como dramaturga da cineasta Renata Martins, da série "Empoderadas". Ela consegue dar poesia ao conflito da mulher negra desde muito cedo enfrentando agruras e estereótipos históricos baseados em preconceito. Uma cena que dá um nó na garganta do espectador é quando a jovem arquiteta negra mostra um excelente projeto a seu chefe branco e ouve deste a resposta se foi ela mesma quem o executou.

Um ponto forte do espetáculo é a música executada ao vivo pelas virtuosas musicistas Fefê Camilo, na percussão, e Ana Gois, na guitarra e no saxofone, criando um clima de jazz intimista no desenrolar da obra, sob direção musical de Dani Nega. A artista gráfica Nina Vieira assina a cenografia em madeira rústica e ao mesmo tempo sofisticada, enquanto Débora Marçal veste as personagens em um figurino elegante e que denota as mudanças no caminho da personagem. A fotógrafa Dani Meirelles cria uma iluminação que conversa o tempo todo com a dramaturgia, poetizando seus momentos mais dramáticos.

"Ida" é um retrato destes tempos nos quais a mulher negra passa a ocupar novos lugares na sociedade, resultado de um esforço contínuo e de um enfrentamento diário com um mundo machista, racista e opressor, mas diante do qual ela não desanima, guerreira que é, que sempre foi. Afinal, como diz o texto da peça, esta é uma ida sem volta. Ainda bem.

"Ida" * * * *
Avaliação: Muito bom
Quando: Sábado, 21h, domingo, 19h. Últimas sessões. 60 min. Até 12/6/2016
Onde: Casa de Teatro Maria José Carvalho – Rua Silva Bueno, 1.523, metrô Sacomã, Ipiranga, São Paulo
Quanto: Grátis (ingressos distribuídos uma hora antes)
Classificação etária: Livre

Mostra Coletivo Negro Pela 25ª Edição da Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo
O que e quando:
Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens – 23 e 24/06, 21h
Ida – 25 e 26/06, 21h
Pele – 27 e 28/06, 21h
Revolver – 29 e 30/06/2016, 21h
Onde: Funarte São Paulo – Alameda Nothmann 1058, Santa Cecília, São Paulo, tel. 11 96156.4341
Quanto: Grátis

Coletivo Negra trata da mulher negra empoderada em

Coletivo Negra trata da mulher negra empoderada em "Ida" – Foto: Divulgação

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes, Risadaria e Aplauso Brasil. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas do Brasil na categoria Cultura em Mídia Eletrônica pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.