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Opinião: Bolsonaro pode comparar negros a animais e nada acontece?

Miguel Arcanjo

06/04/2017 11h26

Jair Bolsonaro comparou negros a animais no palco da Hebraica do Rio – Foto: Antonio Cruz/ABr

Por Miguel Arcanjo Prado

É terrível ouvir a frase racista proferida pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC), cotado como candidato à Presidência da República, em palestra no clube Hebraica do Rio, nesta segunda (3).

Ao falar sobre comunidades quilombolas, de descendentes diretos de homens e mulheres negros que foram escravizados no Brasil, Bolsonaro comparou seus habitantes a animais.

O deputado utilizou uma medida de peso do mercado de gado para se referir a estes seres humanos. E ainda escolheu o verbo “procriar”, também típico para animais, para tratar de quilombolas como se fossem bichos ou escravos que serviriam, em sua visão racista, apenas para a reprodução.

A declaração dita por Bolsonaro foi a seguinte: “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais”.

O pior é que tal frase foi dita em um clube de judeus, povo perseguido e assassinado pelos nazistas, justamente criminosos que se recusavam a tratar judeus como seres humanos. Como agora faz Bolsonaro com os negros.

É indigno ver Bolsonaro preferir tal frase diante da bandeira do Estado de Israel. E ouvir, no vídeo, que pessoas na plateia, formada majoritariamente por judeus, riem da declaração e chamam a Bolsonaro de “mito” — é importante ressaltar que grande parte da comunidade judaica foi contra a palestra de Bolsonaro na Hebraica, muitos inclusive fizeram protesto do lado de fora do clube; e a Hebraica de São Paulo suspendeu a conferência com Bolsonaro, após reação negativa dos sócios.

Como puderam achar graça de tal frase? Como não o expulsaram daquele palco? Aquela frase, dita ali, é um enorme desrespeito mundial não só com os negros mas com a dor e a história dos antepassados judeus de quem estava na plateia, gente que sofreu o horror nos campos de concentração.

Bolsonaro animalizou os habitantes de comunidades quilombolas. E também atacou as comunidades indígenas. Como se tais etnias não fossem integrantes da sociedade brasileira. Justo as duas etnias mais frágeis de nossa sociedade racista e excludente. Cujos descendentes até os dias de hoje são prejudicados devido a séculos de escravização, opressão e racismo.

Roberto Tardelli, procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo, em uma “carta aos judeus que riram da fala racista de Bolsonaro”, diz:

“O que me chamou a atenção não foi somente sua afirmativa, mas quem ria, de quem partiam as risadas ao fundo. Eram judeus […] Cada um deles, cada um daqueles que riu da anedota do deputado, vulgarizou a perseguição que seus antepassados próximos sofreram; cada judeu que riu, cobriu de vergonha a memória dos judeus mortos no Holocausto”.

Tardelli, em sua carta, vai além e demonstra-se chocado com a falta de repercussão devida à fala racista de Bolsonaro na sociedade, que deu maior espaço e cobertura ao caso de assédio de José Mayer do que à fala racista de Bolsonaro na Hebraica.

Ambos mereciam cobertura similar. E todas as manchetes possíveis. Alguns veículos que cobriram a conferência de Bolsonaro na Hebraica sequer destacaram a fala racista nos títulos.

Tardelli diz:

“Esperaria vê-lo amaldiçoado pelo Diretor da Hebraica Carioca, fulminado por alguma autoridade consular importante de Israel, ter sobressaltado o Supremo e a Mesa da Câmara para que fosse processado por difamação e cassado por quebra de decoro parlamentar (jamais se viu algo assim), ter sido desmentido por alguém que lhe fosse próximo e amigo, que tivesse fechadas as portas de cafés, bares, restaurantes e posto isolado nos aeroportos.

Imaginaria que finalmente ele houvesse encontrado o fim de sua caminhada e que fosse processado criminalmente, que os sacripantas que riram de sua anedota fossem expulsos da comunidade judaica. Imaginaria que ele fosse condenado a pagar uma indenização ao Clube Hebraica e o Clube Hebraica condenado a pagar uma indenização a sei lá a quem, por ter convidado um verme para falar a seus associados.

Que o Ministério Público saísse de seu casulo protegido e monotemático e o processasse civilmente. Imaginaria o Procurador Geral da República e o Presidente do Supremo Tribunal Federal livres de picuinhas menores, lamentando e tomando todas as medidas contra o deputado.

Nada. A julgar pelas reações, a ofensa de José Mayer foi muito mais grave de a Jair Bolsonaro. Estamos definitivamente doentes. Atordoados pelo nosso ódio, atordoados porque nunca estivemos e fomos tão ruins.

Humanamente ruins.

Então, é isso?

Bolsonaro pode comparar negros a animais e nada acontece?

Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista formado pela UFMG, pós-graduado na USP e mestrando em Artes na UNESP. É vice-presidente da APCA. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV UFMG, O Pasquim 21, TV Globo, Curso Abril de Jornalismo, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, R7, Record e Record News.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo conta de um jeito leve e inteligente o que rola nos palcos e nos bastidores do mundo do Entretenimento.

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