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Festival de Curitiba leva 200 mil ao teatro, número igual ao recorde do Maracanã na Copa de 1950

Miguel Arcanjo

10/04/2017 10h30

Jé Oliveira, do Coletivo Negro, em cena de “Farinha com Açúcar”, um dos destaques do 26º Festival de Curitiba – Foto: Leonardo Lima/Clix

Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial a Curitiba*

Com 200 mil pessoas vendo teatro, número igual ao recorde de público do futebol na final entre Brasil e Uruguai no Maracanã na Copa de 1950, o 26º Festival de Curitiba terminou neste domingo (9), após 350 espetáculos apresentados em 13 dias.

O evento teatral idealizado e dirigido pelo curitibano Leandro Knopfholz é o maior e mais longevo do Brasil. Neste ano, esteve afinado com as discussões que pegam fogo na sociedade brasileira, como o racismo e o machismo, dando espaço para negros e mulheres apresentarem seus discursos no palco.

Apesar da crise econômica, que fez com que o Festival de Curitiba, que já teve mais de 400 atrações nos últimos anos, precisasse reduzir o número de espetáculos, houve bilheteria esgotada em 11 peças das 37 da Mostra Oficial. No Fringe, a mostra paralela com mais de 300 peças, também houve público farto em diversas montagens.

Rafael Lucas Bacelar e Cristal Lopez durante a “Gaymada” em Curitiba – Foto: Emi Hoshi/Clix

Sexualidade e liberdade

A discussão da sexualidade, da homossexualidade e da transexualidade esteve em espetáculos aclamados pelo público, como “Momo: Para Giloda com Ardor”, no qual o paranaense Ricardo Nolasco prestou tributo à travesti Gilda, que marcou a Curitiba dos anos 1970, no palco e nas ruas; e a performance “Gaymada” e o espetáculo de rua itinerante “Nossa Senhora [da Luz]”, do coletivo mineiro Toda Deseo.

O grupo questionou com coragem os valores impostos pelo patriarcado e a família chamada de “tradicional”, enfrentando inclusive uma pedrada homofóbica durante uma das apresentações de “Gaymada”.

Mais uma vez, segundo Knopfholz, “o Festival de Curitiba buscou dialogar com a sociedade e o espaço público”.

No campo internacional, o destaque foi “Moçambique”, no qual Jorge Andrade, moçambicano, branco e que vive desde os quatro anos em Portugal, apresentou uma versão fantasiosa do país africano com um potente elenco multiétnico.

Nena Inoue, em “Para Não Morrer”, destaque na 2ª Curitiba Mostra – Foto: Samira Chami Neves/Clix

Negritude e esquerda

O racismo e a cultura afro-brasileira foram abordados por espetáculos fortes como “Farinha com Açúcar, Ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, de Jé OIiveira, do paulistano Coletivo Negro, que realizou um protesto ao fim da apresentação do sábado (8), projetando ao fundo do palco a frase “Todo pode ao povo” ao som de “Mariguella”, dos Racionais MCs.

Já a peça curitibana “Macumba: Uma Gira sobre Poder” apresentou a tocou na triste perseguição preconceituosa aos cultos afro-brasileiros no Brasil de hoje. “Próspero e os Orixás”, do diretor carioca Amir Haddad, também prestou tributo à ancestralidade africana.

A segunda edição da Curitiba Mostra também foi destaque. Nena Inoue chamou a atenção ao abraçar de forma potente Eduardo Galeano e seu pensamento sobre a esquerda latino-americana em “Para Não Morrer”. O bar do espaço, conduzido pelas atrizes Patricia Cipriano e Amira Massabki, virou o point do Festival.

Cris Moreira na peça “Rosa Choque”, destaque no Fringe – Foto: Nilton Russo/Clix

Destaques do Fringe

O Fringe, a mostra paralela com mais de 300 atrações vindas de 14 Estados coordenada por Priscila de Morais, também registrou público farto em muitas peças apresentadas nos palcos e também nos espetáculos de rua.

Destacaram-se a recifense “A Mulher Monstro”, fazendo uma ácida crítica à burguesia racista e preconceituosa, a belo-horizontina “Rosa Choque”, tocando no tema da violência contra a mulher, e a carioca “Blackbird”, que abordou um caso real de pedofilia. Outras peças que geraram burburinho entre o público foram “Acorda, Amor”, “Mirar, Migrar”, “Homem da Silva” e “Duas Gotas de Lágrimas no Frasco de Perfume”.

Um grupo de 34 estudantes de artes cênicas da UniRio apresentou 12 trabalhos diferentes durante o evento. A ida foi bancada com dinheiro arrecadado em uma festa e o grupo contou com ônibus da universidade para o transporte. “Foi uma experiência muito rica de troca”, definiu Stace Mayka.

Debora Bloch, que participou de “Blank” no Festival de Curitiba – Foto: Annelize Tozetto/Clix

Nomes famosos

Sucessos já referendados pelas plateias de todo o Brasil também marcaram presença, como “Cada Um com Seus Pobrema”, comédia do paulistano Marcelo Médici, “A Casa dos Budas Ditosos”, monólogo de sucesso com Fernanda Torres, e o musical “Roque Santeiro”.

Outros famosos marcaram presença no evento, como Marcelo Serrado, que fez “Os Vilões de Shakespeare” e o grande time que defendeu o texto “Blank”, que teve um artista diferente em cada apresentação e contou com Eduardo Moscovis, Débora Bloch, Caio Blat, Camila Pitanga, Julia Lemmertz e Gregório Duvivier. Enquanto que Luís Miranda fez seu monólogo “7 Conto”. Nomes importantes da performance, como André Masseno, que fez “Louca pelo Cheiro do Mar”, e Wagner Schwartz, que apresentou “Transobjeto”, também chamaram a atenção do público.

Fernanda Montenegro em “Nelson Rodrigues por Ele Mesmo” – Foto: Lina Sumizono/Clix

Zé Celso e Fernandona

Grupos respeitados do teatro nacional, como o Grupo Galpão, de Belo Horizonte, que apresentou “Nós”, e a Cia. Hiato, de São Paulo, que encenou “Os Amadores”, também marcaram presença em Curitiba, além de ícones dos palcos como Fernanda Montenegro, que abriu o evento com “Nelson Rodrigues por Ele Mesmo” e José Celso Martinez Corrêa e Renato Borghi, que participaram de uma exibição do filme “O Rei da Vela”, baseado na peça de 1967, com a presença do cineasta Noilton Nunes.

Zé Celso, aos 80 anos, no 26º Festival de Curiitba – Foto: Annelize/Tozetto

Para os curadores Marcio Abreu e Guilherme Weber, no segundo ano à frente do Festival de Curitiba, “os espetáculos evidenciaram a criatividade feminina, a ocupação do espaço público por parcelas da população habitualmente sem visibilidade social e a manifestação de culturas desprivilegiadas”.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Curitiba.

O ator guineense Welket Bungué na peça “Moçambique”, destaque internacional – Foto: Leonardo Lima/Clix

Siga Miguel Arcanjo Prado no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista formado pela UFMG, pós-graduado na USP e mestrando em Artes na UNESP. É vice-presidente da APCA. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV UFMG, O Pasquim 21, TV Globo, Curso Abril de Jornalismo, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, R7, Record e Record News.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo conta de um jeito leve e inteligente o que rola nos palcos e nos bastidores do mundo do Entretenimento.

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