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Série Cara Gente Branca conquista fãs no Brasil: negros e brancos

Miguel Arcanjo Prado

10/05/2017 12h06

Com ponto de vista dos negros para o racismo, série "Cara Gente Branca" se destaca na Netflix- Foto: Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

"Eu adorei 'Dear Withe People'", avisa a jornalista e empresária paulista Cristiane Guterres assim que a reportagem começa o papo sobre "Cara Gente Branca", série que estreou há pouco na Netflix, após causar polêmica nos EUA.

Lá, mesmo sem os capítulos serem disponibilizados e tendo como referência apenas o teaser promocional, um grupo de assinantes brancos cancelou a assinatura da Netflix diante da proposta de uma série que trata do racismo a partir do ponto de vista dos negros.

E este é o grande diferencial de "Cara Gente Branca", inspirada no filme homônimo de 2014 de Justin Simien: abordar sem rodeios e com muita ironia um tema que precisa ser discutido pela sociedade. Nos EUA e no Brasil.

Série "Cara Gente Branca" começa com polêmica festa do blackface logo no primeiro episódio – Foto: Divulgação

Logo na abertura da série, é mostrada uma festa do blackface, com estudantes brancos pintados de preto, o que detona as tensões raciais no campus universitário onde se passa a história. As relações raciais no lugar são tema dos dez episódios da primeira temporada, que apresenta os principais personagens e seus pontos de vista em cada um deles.

O que incomodou alguns logo de cara é também o que faz "Cara Gente Branca" ganhar a cada dia novos fãs no Brasil. Espectadores de diferentes etnias.

Cristiane Guterres: identificação e emoção a cada episódio de "Cara Gente Branca" – Foto: Arquivo pessoal

Muitos se veem espelhados no roteiro, como Cristiane Guterres: "Eu me identifico e me emocionei em cada episódio", conta.

"Não estou acostumada em ver retratada numa série a dor dilacerante que eu senti a primeira vez que todas as minhas amigas brancas ficaram com alguém no rolê e eu fiquei sozinha. Só que não é só sobre ficar sozinha numa festa, é sobre ser sozinha na vida, no trabalho, na universidade. É sobre como eu me submeti a dores infindáveis para ter cabelo liso e ser aceita", afirma a jornalista.

As personagens Sam e Coco em "Cara Gente Branca" – Foto: Divulgação

A protagonista Sam e sua melhor amiga, Joelle (à dir.), que não ganhou episódio próprio na primeira temporada – Foto: Divulgação

Ela se identifica com a personagem Coco, vivida pela atriz Antoinette Robertson, que busca a ascensão social pelo estudo, mas precisa lidar com o racismo diariamente. Cristiane espera que outra personagem, pela qual tem grande carinho, ganhe um episódio próprio na segunda temporada: Joelle (Ashley Blaine Featherson), melhor amiga da protagonista Sam (Logan Browning) e que não ganhou capítulo próprio na primeira temporada.

"Na sociedade eu sou Joelle, mulher preta retinta que precisa lutar ainda mais pra não ser invisibilizada", aponta Cristiane. Segundo ela, a série, ao mostrar a protagonista Sam conquistando a liderança dos estudantes negros, expõe também o colorismo, teoria de que quanto mais escura é a pele de um negro mais racismo ele sofre.

"É muito mais fácil para a Sam. Ela tem olhos verdes, ela é clara. É óbvio que se os brancos tiverem que tolerar alguém será ela", explica, problematizando o roteiro da série.

Franz Galvão: forma diversa com que homens negros são mostrados é ponto forte de "Cara Gente Branca" – Foto: Arquivo pessoal

Para o mineiro Franz Galvão, mestrando em Educação na UFMG, a série descortina as tensões presentes nos mais diversos movimentos negros. E destaca a personagem Coco, na qual "a série trabalha o empoderamento da mulher negra, o preterimento da mulher preta em relação às brancas e até mesmo em relação às mestiças, como no caso de sua amiga e protagonista Samantha White", fazendo coro a Cristiane.

Franz ressalta também que a forma como os homens negros são construídos na série foge do lugar-comum. "Homens negros são marcados pelos estereótipos construídos pela sociedade, geralmente desumanizados, visto e reconhecidos pela virilidade, sexualidade e violência. O seriado mergulha na diversidade dos seus personagens negros, consegue mostrar negros gays, ricos e muito inteligentes", aponta.

Sam, a aguerrida protagonista negra, namora um branco, Gabe, em "Cara Gente Branca" – Foto: Divulgação

Franz ainda lembra outro ponto importante mostrado na série: as relações de amor inter-raciais, foco da história da protagonista Sam e seu namorado Gabe [John Patrick Amedori].

"Gabe, o namorado branco de Sam, apesar de suas boas intenções em colaborar com esse universo, destaca sempre a sensação de perigo quando está perto de negros, chegando a perguntar para o personagem mais inteligente da série, que é negro, se ele iria bater nele como alternativa de diálogo, e em outro ponto chamando a polícia".

Lucas Allmeida: "Cara Gente Branca" é um aprendizado a cada cena – Foto: Arquivo pessoal

Para o ator paulista Lucas Allmeida, ver a série é uma forma "de entender um pouco do movimento negro". "Cada cena é um aprendizado enorme. O incrível é que a série não tem medo de mostrar a raiva de ambos os lados, com discursos difíceis de engolir, mas que são a pura verdade", fala.

Para Lucas, o roteiro é "totalmente atual, rápido e com referências do nosso cotidiano", citando "as listas do Buzzfeed e a idolatria por Beyoncé".

"Algumas histórias da série são bem parecidas com as que meu pai e meus tios, negros, contam sobre a juventude deles nos anos 1960 e 1970", revela, antes de conclamar: "'Dear White People', é no mínimo necessária e obrigatória".

Mateus Monteiro: "Cara Gente Branca" é um exercício de sensibilidade – Foto: Arquivo pessoal

O ator paulista Mateus Monteiro também viu a primeira temporada. E gostou muito. "Além de roteiro, atores e direção excelentes, o que mais me chama a atenção em 'Cara Gente Branca' é o exercício de sensibilidade que a série provoca", diz.

Para Mateus, a série "revela muito da dor e do sofrimento que séculos de racismo acarretam ainda hoje escondidas atrás das cruéis máximas: 'calma, era só uma piada', 'pra quê essa tempestade num copo d'água?' entre tantas outras".

"O seriado é uma contribuição contundente à sensibilização do olhar sobre a dor e sobre luta por igualdade racial, conduzindo, consequentemente, ao indispensável respeito", define o ator.

Laura Guimarães Corrêa: quinto episódio da primeira temporada de "Cara Gente Branca" é forte e vigoroso – Foto: Mark Naik

Laura Guimarães Corrêa, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG, ressalta a tensão presente na série: "Os atores são lindos, as atrizes também. O figurino é ousado, interessante e poderoso. A direção de arte, impecável. O cenário são os quartos, salas e prédios da Winchester, uma universidade fictícia da Ivy League. Mas alguma coisa está fora da ordem: o polêmico programa de rádio de Sam White fala sobre racismo na universidade, para uma maioria que não quer ouvi-la".

Para Laura, o seriado é "bem humorado, inteligente e às vezes previsível" e aponta "as conflituosas e desiguais relações raciais", tema "tão importante quanto incômodo", lembrando que "parte da audiência estadunidense boicotou o serviço de streaming que produz e distribui a série".

"'Dear White People' nos lembra que a universidade, instituição historicamente dominada por homens brancos, é parte da sociedade", diz. E que a fictícia Winchester "reproduz os lugares de poder e as violências nada ficcionais que mantêm o privilégio branco em diferentes espaços – principalmente nos mais privilegiados".

Cena do episódio cinco de "Cara Gente Branca", com policial branco apontando a arma para estudante negro em uma festa: série expõe o racismo – Foto: Divulgação

Para a professora da UFMG, "apesar de alguns diálogos forçados, da lógica neoliberal que atravessa tudo, do elenco principal não ter a idade de estudantes calouros, a série é muito bem-vinda".

E defende que o clímax de "Cara Gente Branca" está no episódio 5. "Ele é dirigido por Barry Jenkins, o mesmo diretor do filme 'Moonlight'. Forte e vigoroso, esse capítulo já vale a série", deixa a dica.

Afinal, como diz a frase do escritor e crítico social afro-americano James Baldwin (1924-1987), que abre a série: "O paradoxo da educação é que ao ter consciência passa-se a examinar a sociedade onde se é educado". O sucesso de "Cara Gente Branca" é a prova disso.

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes, Risadaria e Aplauso Brasil. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas do Brasil na categoria Cultura em Mídia Eletrônica pelo Prêmio Comunique-se.

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