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Crítica: Musical Madame Satã se sobressai com resistência unida à arte

miguelarcanjo

18/06/2017 13h14

Denilson Tourinho como Madame Satã: cativante e com discurso afiado, musical aposta na resistência que a figura lendária representou – Foto: Guto Muniz

Por Miguel Arcanjo Prado

Falar de João Francisco dos Santos (1900-1976), mais conhecido por Madame Satã, é, antes de tudo, falar de resistência.

Resistência de um homem negro, gay e artista que precisou enfrentar diariamente em sua vida o preconceito, o racismo, a violência de Estado. E que, mesmo assim, conseguiu deixar seu nome cravado na história.

O Grupo dos Dez, de Belo Horizonte, entendeu isso muito bem ao contar, em forma de musical, a trajetória daquele que fez de sua vida na boêmia Lapa das primeiras décadas do século 20 sua maior obra de arte.

Cena do musical “Madame Satã”, com concorridas sessões na Caixa Cultural, em São Paulo – Foto: Guto Muniz

A vontade de dialogar, com amor, começa no encontro de gerações na direção, que une as sensibilidades de João das Neves, renomado diretor da história do teatro brasileiro, e o novato, mas já potente, Rodrigo Jerônimo, respeitoso com o mestre, mas detentor de propostas próprias, ainda bem.

O musical começa buscando a rua, palco maior de Satã, para apresentá-lo naquele ambiente que este dominava.

Nas concorridíssimas apresentações paulistanas na Caixa Cultural, na qual este crítico viu a obra, a praça da Sé virou a Lapa carioca — com uma boa dose de imaginação era possível ver até os famosos arcos ao fundo —, com seu movimentar de malandros e prostitutas em meio ao público, mergulhando o espectador no clima do musical.

E, em uma transição sutil, a peça sai da rua e invade o palco, acomoda seu público, instalado em um bordel de vozes potentes bem arranjadas.

Bia Nogueira, ao centro, responsável pela direção musical, ponto forte de “Madame Satã” – Foto: Guto Muniz

É aí que faz toda a diferença a direção musical cuidadosa de Bia Nogueira, também em cena. As vozes, afinadíssimas, se sobressaem, os músicos estão ali, presentes, parte do todo, nos arranjos concebidos por Alysson Salvador.

O elenco se integra entre canto, música e atuação de uma forma cadenciada — mérito também da preparação rítmica de Daniel Guedes e da preparação corporal de Benjamin Abras —, sobressaindo-se mais nas duas primeiras funções.

Estão em cena ainda Alcione Oliveira, Juliene Lellis, Gabriel Coupe, Carla Gomes, Kátia Aracelle, Nath Rodrigues, Thiago Amador, Junim Ribeiro, Jhulia Santos e Sam Luca e sua drag Azzula — de força e canto descomunal.

O jogo entre três atores abraçando a figura de Madame Satã (Denilson Tourinho, Evandro Nunes e Rodrigo Negão) reforça o olhar múltiplo para o personagem repleto de matizes.

Evandro Nunes, que também dá vida a Madame Satã no musical – Foto: Guto Muniz

O cenário de Cicero Miranda e Débora Alves — também responsáveis pelo figurino —, composto de caixas funcionais que desfilam pelo palco, ajudam no jogo.

O grande mérito desta montagem, a melhor dentro da trilogia afro-mineira de João das Neves, que contou ainda com “Galanga – Chico Rei” e “Zumbi”, é justamente a aposta em dramaturgia e música originais.

E faz toda a diferença esta música ser criada e interpretada por jovens artistas negros que fazem a diferença atualmente não só na cena belo-horizontina como brasileira. Gente que assume as rédeas de contar a história dos seus — quem melhor estaria credenciado a isso?.

Rodrigo Negão também interpreta Madame Satã no musical – Foto: Guto Muniz

Sem hipocrisia demagógica, mas com ações concretas a começar na escalação de um elenco repleto de diversidade sexual, os autores Marcos Fábio de Faria e Rodrigo Jerônimo aproximam, de forma pungente, a trajetória de Madame Satã à de travestis e de transexuais na contemporaneidade, ainda vítimas de uma violenta sociedade racista, opressora, homofóbica, transfóbica, patriarcal e excludente.

“Madame Satã” evoca com respeito os que tombaram na luta, para então seguir em frente. E o faz com punhos cerrados apontados para o alto e de cabeça erguida, no encontro da arte com a resistência.

“Madame Satã” faz última sessão em SP neste domingo (18) às 19h15 na Caixa Cultural da Sé com ingressos gratuitos, encerrando temporada de sucesso – Foto: Guto Muniz

“Madame Satã” * * * *
Avaliação: Muito bom
Informações: Grupo dos Dez

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista formado pela UFMG, pós-graduado na USP e mestrando em Artes na UNESP. É vice-presidente da APCA. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV UFMG, O Pasquim 21, TV Globo, Curso Abril de Jornalismo, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, R7, Record e Record News.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo conta de um jeito leve e inteligente o que rola nos palcos e nos bastidores do mundo do Entretenimento.

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