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Crítica: Gerald Thomas faz de Dilúvio uma obra genial

Miguel Arcanjo Prado

16/11/2017 18h24

Gerald Thomas entre as atrizes de “Dilúvio”: profecia do nosso caos, novo espetáculo é uma obra genial – Foto: Roberto Setton/Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Muito se diz ou se opina sobre Gerald Thomas, muitas vezes por gente que sequer conhece algum de seus espetáculos. Afinal, sua forte personalidade tornou-se uma lenda viva do teatro brasileiro e do jornalismo de celebridades também, mesmo em seu extenso autoexílio nova-iorquino.

Contudo, uma coisa realmente é verdade nesse mar de disse-me-disse: goste-se ou não dele, Gerald Thomas é um grande artista

E, aos 63 anos, sua sensibilidade se revigora altamente potente em sua mais nova peça, a apocalíptica “Dilúvio”, em cartaz no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo.

A peça fala da impossibilidade de nos comunicarmos com quem nos é diferente, incentivada cada vez mais pelas bolhas das redes sociais, o que provocará nosso fim na eclosão da apocalíptica 3ª Guerra Mundial.

Assim como Zé Celso anteviu a queda de Dilma Rousseff e a volta de um pensamento fortemente conservador e fascista no Brasil na peça “Walmor e Cacilda 64: Robogolpe”, de 2014, em “Dilúvio”, Gerald Thomas parece ter, para nossa infelicidade, a mesma capacidade premonitória que paira sobre a cabeça dos grandes artistas.

Thomas enxerga nesta era de mentiras fortemente conectadas e difundidas instantaneamente o fim de nossa civilização.

As fake news, série de inverdades espalhadas facilmente pelas redes sociais e que ajudaram a eleger gente como Donald Trump nos EUA, são o ponto de partida da encenação.

Isso dialoga fortemente com o momento pré-eleitoral atual brasileiro, onde a censura põe novamente suas garras de fora, demonizando artistas, enquanto as fake news, infelizmente, se impõem cada vez mais sobre as massas, dando status de “mito” a quem vocifera o ódio e o horror.

“Dilúvio” pode ser vista em São Paulo até 17 de dezembro no Sesc Consolação – Foto: Roberto Setton/Divulgação

Em “Dilúvio”, Gerald Thomas provoca o espectador a refletir diante das imagens caóticas e ao mesmo tempo oníricas que propõe, fazendo referências às minorias cada vez mais atacadas.

Quanto tempo ainda nos resta de civilização? Estamos todos caminhando em silêncio para a barbárie sem sequer resistirmos? Será que, de tão separados em nossas bolhas sociais digitais, não mais conseguimos conviver na vida real com as diferenças, com o outro que não é igual a mim?

Beleza plástica irrepreensível e elenco afinado

Senhor absoluto de uma beleza plástica irrepreensível, na qual a luz de Wagner Pinto dialoga constantemente com sua sofisticada cenografia, o diretor e dramaturgo se posta no canto do palco, de costas para o público, onde executa parte da envolvente trilha co-criada com Mauro Hezê, seja utilizando um instrumento percussivo ou um contrabaixo elétrico.

Sua presença física é uma performance que apresenta o diálogo como nossa única saída.

Em grande atuação, a atriz portuguesa Maria de Lima, como uma personagem travesti que é o fio condutor da montagem, busca incessantemente regar inférteis guarda-chuvas que, em outros momentos, servem de escudo contra a tempestade impiedosa.

Ana Gabi, Beatrice Sayd e Isabella Lemos também se destacam no elenco afinado, pela delicadeza e força de cada movimento ou fala. A elas soma-se a figura de André Bortolanza, assistente de direção e também em cena. É preciso elogiar a preparação corporal de Daniella Visco, fundamental neste espetáculo.

As bailarinas Lisa Giobbi e Julia Wilkins também entregam-se sem medo à proposta ousada do diretor e captam o coração do público em sua poesia aérea delicadamente coreografada.

Que o profeta esteja errado

O único desejo que fica é de que o profeta Thomas esteja errado em sua pregação cênica e que consigamos encontrar algum tipo de esperança por dias melhores.

Que a 3ª Guerra Mundial prevista por ele em seu espetáculo para daqui a três anos consiga ser abortada. Que o amor e o respeito ao próximo consigam o feito de sobreviver a este pérfido mundo contemporâneo.

Sem falsa modéstia, Thomas tem dimensão da potência de “Dilúvio” e utiliza, no próprio texto, a palavra gênio. Aos seus detratores pode parecer uma afronta ou um excesso de autoconfiança. Entretanto, àqueles mais sensíveis, os que conseguem respirar fundo e dialogar com seu espetáculo sublime, certamente hão de concordar que “Dilúvio” trata-se, realmente, de uma obra genial.

“Dilúvio” ✪✪✪✪✪
Avaliação: Ótimo
Quando: Quinta, sexta e sábado, 21h, domingo, 18h. 120 min. Até 17/12/2017
Onde: Teatro Anchieta do Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo, tel. 11 3234-3000)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia); comerciários credenciados pagam R$ 12
Classificação etária: 18 anos

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista formado pela UFMG, pós-graduado na USP e mestrando em Artes na UNESP. É vice-presidente da APCA. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por TV UFMG, O Pasquim 21, TV Globo, Curso Abril de Jornalismo, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, R7, Record e Record News.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo conta de um jeito leve e inteligente o que rola nos palcos e nos bastidores do mundo do Entretenimento.

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