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Novela do SBT culpa menina negra por racismo sofrido e causa polêmica

Miguel Arcanjo Prado

10/08/2018 13h11

Cena de As Aventuras de Poliana, novela infantil do SBT escrita por Iris Abravanel, é acusada de reproduzir discurso racista que joga a culpa nos negros pelo racismo que sofrem na sociedade brasileira – Foto: Reprodução – SBT – Blog do Arcanjo – UOL

Uma cena da novela "As Aventuras de Poliana", escrita por Íris Abravanel no SBT, vem causando polêmica na internet e sendo acusada de reproduzir um discurso racista ao culpar os negros pelo racismo que os mesmos sofrem na sociedade brasileira.

Na tal cena que está causando barulho nas redes sociais, a menina Késsya, interpretada por Duda Pimenta, e a diretora Helô, vivida por Eliana de Souza, conversam sobre racismo.

A menina é acusada injustamente na escola e logo entende que é vítima de um ato racista no ambiente em que ela estuda. Uma peça de uma escultura vandalizada na escola foi encontrada dentro na mochila da garota. Como não havia sido ela quem escondeu a peça, a menina foi à direção dizer que estava sendo acusada injustamente, por ser negra.

Contudo, ao buscar apoio da diretora da instituição, que também é negra, esta, em vez de apoiá-la, tenta jogar na criança a culpa da percepção do racismo sofrido.

"Só porque eu sou negra todo mundo já fica desconfiado. Só pode ter sido a Késsia mesmo", fala a garota, evidentemente revoltada com o racismo do qual foi vítima ao receber uma acusação injusta.

"Késsia? Sabe qual é um dos maiores culpados pelo preconceito?", pergunta a coordenadora escolar.

"Os racistas!", responde, consciente, a menina.

"Não, a nossa cabeça", logo corrige a coordenadora. "E para que os outros parem de ver a nós negros como diferentes, nós precisamos parar de nos ver como diferentes, como melhores ou piores que determinada raça", acrescenta.

"Eu não me acho melhor ou pior que ninguém", retruca outra vez a menina.

"Você ainda vai ter tempo para pensar sobre isso. E não se esqueça que para tudo mudar a mudança deve começar dentro da gente", fala a diretora, tentando mais uma vez convencer a menina de que a culpada do racismo que ela sofreu é ela mesma e não os brancos que foram racistas. E que a principal responsável pela mudança é da menina e não dos brancos que foram racistas.

Veja a cena:

Outro lado: SBT diz que novela é "obra de ficção para entreter e não polemizar"

Procurado pelo Blog do Arcanjo no UOL, o SBT enviou a seguinte nota:

"A novela tem o papel de debater questões sociais como o enfrentamento ao racismo, citando vários exemplos. Prova disso, no capítulo 60, no ar nesta terça-feira, houve a cena onde o texto exalta que o racismo é coisa de gente ignorante. E no capítulo 61, ainda no mesmo contexto que foi ao ar ontem, a coordenadora (personagem) do colégio quis convencer a menina que aquele estereótipo de que o negro é sempre culpado à primeira vista não pode prevalecer, mostrando-a uma nova perspectiva. Se instalou uma polêmica que não existe. A novela é uma obra de ficção para entreter e não polemizar."

"Cena ensina que racismo é culpa dos negros"

Luciana Bento, que faz a página A Mãe Preta, focada em dicas para mães mulheres negras, fez o seguinte comentário sobre a cena ao reproduzi-lo na internet:

"Vídeo da cena em que a coordenadora negra ensina a menina que o racismo é culpa dos negros. A branquitude de se aproveitando da nossa imagem para reproduzir e propagar o seu discurso racista, fugindo da responsabilidade pelos seus atos.

Com todo respeito ao trabalho das atrizes Duda Pimenta, que interpreta da menina Késsya, e Eliana de Souza, que interpreta a coordenadora Helô, essa cena é apropriação da nossa imagem negra para reprodução de um discurso racista branco, que vem da escritora da novela Iris Abravanel, da sua equipe de roteiristas, da direção e produção desta novela que não questionaram a violência sombólica e psicologica desse tipo de cena.

Deslegitimar a percepção de uma menina negra da situação de racismo que ela viveu e ainda, "ensinar" a essa criança que o racismo é culpa dos negros que se enxergam diferente dos outros e que não se valorizam a partir da voz de uma mulher negra é mais uma vez violentar a nossa subjetividade e nos colocar como responsáveis por um sistema de exclusão criado e mantido para garantir o privilégio branco.

Por ser uma novela voltada para o público infantil, essa cena se torna ainda mais problemática, porque ofende as crianças negras que assistem e as induz a adotar uma postura passiva diante do racismo na escola.

Quem propaga o racismo, diferente do que foi falado na cena, são próprios racistas, que ocupam os espaços de poder, escrevem novelas e utilizam nossa imagem negra para legitimar seus discursos de ódio."

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes Cênicas pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia e Band. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas de Cultura em Mídia Eletrônica do Brasil pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.