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Crítica: Visceral, musical "Elza" glorifica cantora e ilumina 7 estrelas

Miguel Arcanjo Prado

20/10/2018 12h21

A cantora baiana Larissa Luz assombra o público com performance impressionante como Elza Soares no musical "Elza", em cartaz no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros em São Paulo – Foto: David Campbell – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Em momentos especiais, o teatro brasileiro é impressionado com atuações que são verdadeiras catarses em performances que arrepiam e comovem o público.

Assim foi com "Tim Maia – Vale Tudo, O Musical", quando o paulistano Tiago Abravanel foi catapultado ao sucesso na pele de Tim Maia.

Também ocorreu o mesmo com a baiana Laila Garin, que assombrou a todos com a verdade de sua Elis Regina ressurrecta em "Elis, A Musical".

Agora, a vida e a obra de Elza Soares, a cantora do milênio e principal voz feminina atualmente no Brasil, é eternizada nos palcos em "Elza", idealizado e produzido por Andrea Alves, da Sarau Agência, com produção local de Bruno Barros.

O musical aporta em São Paulo no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, após temporada de público farto e crítica boquiaberta no Rio.

Em terras paulistanas, não é diferente das cariocas. Visceral, o musical "Elza" glorifica a cantora e ilumina sete estrelas, com foco, sobretudo, na impressionante e potente atuação de Larissa Luz como Elza Soares.

Larissa Luz como Elza Soares no musical "Elza": ela faz atuação potente e repleta de inteligência de uma das maiores figuras da história da música brasileira  – Foto: David Campbell – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Única convidada entre as sete artistas que interpretam a cantora em suas mais de oito décadas de vida, a cantora baiana Larissa Luz deixa o público boquiaberto com sua voz em cena, reprodução perfeita da voz inigualável de Elza.

Só este feito já é digno de aplausos efusivos de pé.

Como pode alguém conseguir cantar e falar igual a Elza Soares?

Se até ver o musical "Elza" acreditávamos piamente que ninguém no mundo seria capaz de fazer isso, Larissa Luz nos assombra com sua simbiose com a cantora carioca.

Além de ser impressionantemente parecida com Elza — o que o visagismo de Uirandê de Holanda potencializa ainda mais —, Larissa tem aquela energia em riste e carisma farto que tornaram Elza a cantora que soube se reinventar ao longo dos tempos até chegar ao topo, de onde todos sabemos: ela jamais permitirá que a tirem.

Larissa demonstra grandeza como intérprete ao assumir, repleta de nuances inteligentes e irônicas, um ícone que figura no panteão das maiores cantoras que que o mundo produziu, cujo áspero canto é espelho de discursos políticos que representam quem faz de sua sobrevivência um ato de resistência.

E Elza sobreviveu, dignamente, renascendo cada vez maior, feito Fênix jamais chamuscada pela fogueira da vida.

Certamente, a trajetória musical de Larissa nunca mais será a mesma após "Elza", musical que lhe abrirá portas para que sua estrela ascenda em brilho próprio. Certamente também, o espetáculo aguçará Larissa em busca de novas matizes sonoras para seu repertório.

Júlia Tizumba, Verônica Bonfim, Janamô, Laís Lacorte, Larissa Luz, Khrystal e Késia Estácio: 7 x Elza Soares no imperdível musical "Elza", em cartaz no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, em São Paulo – Foto: Leo Aversa – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Mas, "Elza" não é só Larissa Luz e sua atuação. Mesmo fascinante, ela não eclipsa suas seis colegas de cena.

O espetáculo é, também, fruto da sinergia e do carisma das sete atrizes-cantoras, formando um polifônico ícone feminino, artístico e negro. São, portanto, sete estrelas reveladas em "Elza".

Elas não permitem que a energia caia, mesmo diante da longa duração do espetáculo.

Késia Estácio e Khystal conseguem se sobressair com um canto repleto de personalidade e forte presença, sabendo aproveitar cada chance de performance individual.

Laís Lacôrte, Janamô, Verônica Bonfim e Júlia Tizumba completam o conjunto coeso, com suas vozes encorpadas e absolutamente afinadas, além da vivacidade cênica de todas.

Outro trunfo do espetáculo é a virtuosa banda feminina composta por Renata Montanari, Georgia Camara, Guta Menezes, Grazi Pizani, Marfa Kourakina, Neila Kadhí e Lis de Carvalho. Todas tocam com alma, produzindo uma ambientação sonora onírica.

Aparente no fundo do palco, as musicistas estão integradas ao todo do espetáculo — não são um apêndice —, divertindo-se e emocionando-se em todas as cenas, que engrandecem com seus instrumentos em arranjos prodigiosos de Letieres Leite.

À frente da direção musical ao lado de Larissa Luz e Antônia Adnet, Pedro Luís imprime o diálogo farto que congrega e dialoga correntes musicais distintas em prol de uma música altamente potente e única: a brasileira, fruto de farta mistura, na qual se sobressai a influência africana.

Esta está presente não só em caba batida, mesmo que eletrônica, como objetificada nos instrumentos percussivos assumidos pelas sete Elzas, engrandecendo o palco de batuques ancestrais em verdadeiro transe.

Cena do musical "Elza", imperdível no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros em SP – Foto: David Campbell – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

À frente do texto no qual bebe da fonte do teatro épico, Vinicius Calderoni demonstra ser dramaturgo de sensibilidade ímpar, ao construir um roteiro nada óbvio, repleto de poesia fina e filosófica que passeia pela vida de romance realista fantástico que Elza Soares construiu para si.

Calderoni parece ter conseguido entrar dentro da cabeça de Elza, fazendo-a contar, ela mesma, com sua voz e lugar de fala, sua vida, repleta de altos e baixos em uma rara lição de constante superação.

A Elza polifônica que constrói ganha nuances na diversidade das atrizes em cena, donas de matizes e sotaques distintos.

A iluminação de Renato Machado aposta mais na luz branca fria do que em tons quentes, dando à montagem um ar estético metálico e pós-moderno, causando certo contraste com a quentura da história e da voz de Elza. Em alguns momentos, a iluminação caminha no risco ao cegar parte do público intencionalmente nos momentos desnorteados da vida da artista.

Gabriel D'Angelo, em associação com André Breda, Bruno Pinho e Rodrigo Oliveira, faz um design de som impecável, trabalhando minuciosamente para valorizar ainda mais os timbres potentes das atrizes no palco, em arranjos vocais minuciosos assinados por Larissa Luz.

Musical "Elza" cristaliza momento histórico feminino e negro na trajetória única de Elza Soares: peça está em cartaz no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros em SP até 18 de novembro – Foto: David Campbell – Divulgação – Blog do Arcanjo

Duda Maia assume o comando de tudo, criando uma direção dinâmica e inventiva. Consegue a façanha de preencher o palco de vida sem nenhuma dificuldade, fruto do hábil elenco que tem, mesmo diante da simplória cenografia de André Cortez, composta por alguns baldes e carrinhos ressignificados.

A direção aposta no jogo entre as habilidosas artistas, sabendo dosar bem o protagonismo entre todas, por mais que Larissa Luz atue de forma soberana.

Na visão deste crítico, a direção só comete um leve tropeço: não conseguir dar-se conta que o fim apoteótico e catártico do espetáculo poderia ter sido quando termina o número "A Carne", onde a montagem consegue criar o momento de maior epifania entre público e artistas do teatro brasileiro recente, com as atrizes em cena incorporando o discurso da canção em carne viva.

É como se o espetáculo pedisse, por si só, seu encerramento ao término desta música, quando está em seu auge, tal qual a carreira de Elza neste momento atual, deixando evidente, ali, que nada poderia superá-lo — o aplauso de pé do público a esta cena na sessão vista por este crítico deixou isso evidente. Os deuses do teatro mandam recados e há que saber ouvi-los. De todo modo, o melancólico epílogo que se segue não é capaz de prejudicar o todo.

O musical cristaliza o atual momento histórico do Brasil, sobretudo o feminino e negro, na vida de uma artista que traz, em si só, a ressignificação de muitos, de muitas.

E o que nos alegra é saber que a homenageada, Elza Soares, ao contrário de Tim Maia e Elis Regina, que não puderam ver seus musicais, segue presente, viva, entre nós, podendo assistir e abençoar sua própria glorificação no imperdível espetáculo que carrega seu nome e a sua ímpar história: "Elza".

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
"Elza" ✪✪✪✪✪
Avaliação: Ótimo
Quando: Quinta a sábado, 21h, domingo e feriado, 18h. 135 min. Até 18/11/2018.
Onde: Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195, metrô Faria Lima, São Paulo, tel. 11 3095-9400)
Quanto: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia) e R$ 15 (credenciados plenos do Sesc)
Classificação etária: Livre

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes Cênicas pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia e Band. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas de Cultura em Mídia Eletrônica do Brasil pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

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