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Crítica: Inteligente e libertária, "Luz del Fuego" conquista o público

Miguel Arcanjo Prado

21/10/2018 14h18

Elisa Romero e Rita Cadillac, as protagonistas de "Luz del Fuego": história de bailarina libertária conversa com Brasil de hoje – Foto: Antonio Marcelo Alves FocoImage – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

A despeito de qualquer preconceito bobo contra sua figura carismática popular, a capacidade de reinvenção de Rita Cadillac impressiona.

Dessa vez, a mais famosa dançarina do "Cassino do Chacrinha" marca sua estreia no teatro aos 64 anos de idade na pele de uma personagem que se ajusta como uma luva em sua persona.

Rita é Luz del Fuego (1917-1967), bailarina que marcou a história do teatro de revista brasileiro no século 20, ícone de caráter libertário.

O mérito de levar Cadillac para os palcos, em comemoração ao centenário da icônica e sensual bailarina, é do autor da peça, Julio Kadetti, sempre propondo ousadia em seu teatro sem deixar de lado uma farta comunicação com o grande público. E, o melhor: sem abrir mão de suas ideias.

Kadetti constrói uma dramaturgia folhetinesca, com forte elementos simbólicos que dialogam fartamente com o tenso momento político de confronto que vive o Brasil atual.

A trama do espetáculo "Luz del Fuego" acompanha a trajetória da personagem-título desde sua infância até sua misteriosa morte aos 50 anos.

Maciel Silva assume a direção, que torna cada cena um verdadeiro capítulo de novela, com seus conflitos dramáticos e atuações carregadas que o público acompanha com fervor e intensas reações, muitas delas audíveis.

Aliás, o espetáculo é sucesso de público mesmo em tempos de crise de espectadores nos teatros.

Na sessão vista por este crítico, não havia vago um lugar sequer, o que deixa evidente que "Luz del Fuego" precisa de urgente prorrogação ou mesmo uma nova temporada paulistana, após encerrar a primeira temporada neste domingo (21). Público, certamente, não faltará.

Os atores Yuri Martins, Ana Saguia e Elisa Romero em cena de "Luz del Fuego": desconstrução do conceito de "família tradicional" baseado na hipocrisia – Foto: Antonio Marcelo Alves FocoImage – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

O texto de Kadetti desconstrói habilmente a imagem de "família tradicional" perfeita, mostrando que por trás de um discurso moralizante habita a podridão da hipocrisia, do despeito e do ódio.

Em muitos momentos, o público percebe as ligações do Brasil de ontem com o de hoje, e aplaude em cena aberta.

Apesar de Rita, quem assume Luz del Fuego na maior parte da peça é Elisa Romero, jovem atriz que mostra competência além de sua beleza. Ela faz a versão jovem da personagem com um misto de atrevimento e leveza sensual que a torna uma espécie de Gabriela de Sonia Braga reencarnada.

Elisa mostra domínio do texto dramático, crescendo a cada cena e tornando suas falas mais profundas.

Os atores Arnaldo Gianna, Elisa Romero e Rita Cadillac em "Luz del Fuego": sensualidade e discurso político que combate hipocrisia do conservadorismo – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Na pele da ferrenha e religiosa matriarca, sendo ela mesma ferramenta opressora da mulher livre representada por Luz, Ana Saguia se destaca por sua intensidade em cena construindo uma hábil vilã e desvelando ao fim o desamparo de sua personagem ao seguir velhas e cruéis regras.

Outra que representa o mesmo conflito é a carola irmã de Luz del Fuego, representada por Letycia Martins, que investe a personagem em uma horda de amargura que ganha seu ápice nos confrontos dela com o marido traidor — pepel de Leoncio Moura, que deixaria seu personagem mais profundo se investisse mais na sutileza do mesmo — e o irmão alcoólatra covarde e frustrado, interpretado por Yuri Martins, que cresce junto de seu personagem no desenrolar da peça, pintando-o com matizes profundas.

Os atores Victor Wagner, Elisa Romero e Cleber Colombo em cena de "Luz del Fuego": diálogo do Brasil de ontem com os tempos atuais – Foto: Antonio Marcelo Alves FocoImage – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Além de dirigir o espetáculo, Maciel Silva, um ator habilidoso na comédia, diverte o público como a melhor amiga de Luz, uma jovem e atrevida travesti, que comete o único momento incômodo do texto: quando, em briga com uma candidata a produtora do novo espetáculo de Luz del Fuego, também travesti (interpretada com deboche por Cleber Colombo), faz um xingamento racista, permitindo que parte do público se identifique e ria da piada desnecessária, mesmo que colocada como homenagem a um certo tipo de humor já em desuso e reforçante de esterótipos raciais, dos quais a dramaturgia precisa se livrar.

Completam o elenco Arnaldo D'Ávila, que constrói de um modo abobalhado e ao mesmo tempo cruel um senador que representa a hipocrisia de certos políticos nacionais, Arnaldo Gianna, como o anjo que atormenta os pensamentos de Luz e deixa o público em frenesi com sua nudez em riste, e Victor Wagner, verossímil na pele de um delegado corrupto na primeira fase da obra e depois como o amante final que explora Luz del Fuego em seus últimos anos de vida, já interpretada por Rita Cadillac.

A montagem ainda guarda participação afetiva com vozes em off de Aguinaldo Silva e Marcelo Alves.

Os atores Ana Saguia, Leoncio Moura e Letycia Martins em cena de "Luz del Fuego": podridão familiar escondida debaixo do tapete em nome das aparências – Foto: Antonio Marcelo Alves FocoImage – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Rita Cadillac, que abre e encerra a montagem, se destaca pela coragem — logo na primeira cena, surge nua. Ela encara com o frescor de uma menina o novo desafio em sua carreira, e sai bem para uma principiante nas artes dramáticas. A ex-chacrete hipnotiza o público em sua dança (coreografada por Cauê Valliaz), coisa na qual é especialista, mas ainda pode crescer nos diálogos, no qual é perceptível que tateia terreno novo. Contudo, a atriz novata demonstra disposição em acertar e presença intensa que captura a energia do público.

Destacam-se ainda os figurinos de André Liberrmundi — o que veste a mãe, por exemplo, funde, de modo propositivo, o preto costumeiro de antigas viúvas católicas a referências de vestimenta militar.

Em boa parte da montagem, a luz de Hugo Peake busca inebriar o público, criando certa poesia em meio à crueza da história (talvez seria mais apropriado uma luz mais âmbar e rosa nas cenas de nudez, para preservar o mistério e a beleza do corpo dos artistas).

Marcelo Andrade aposta em cenografia prática e eficiente: com poucos ajustes assumidos pelo próprio elenco, cria-se novas ambientações.

"Luz del Fuego" é um espetáculo que prova que é possível fazer um teatro que agrade ao grande público sem abrir mão da inteligência e de um profundo recado artístico de protesto político, feito de modo engenhoso e surpreendente. Capaz de fazer qualquer tipo de preconceito teatral cair por terra. Porque o teatro não deve ser excludente, mas, sim, para todos.

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
"Luz del Fuego" ✪✪✪✪
Avaliação: Muito Bom 
Quando: Domingo, 19h30. 100 min. Última apresentação em 21/10/2018.
Onde: Teatro Jaraguá (r. Martins Fontes, 71, Consolação, São Paulo)
Quanto: R$ 30 a R$ 80
Classificação etária: 18 anos

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes Cênicas pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia e Band. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas de Cultura em Mídia Eletrônica do Brasil pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.