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Crítica: Fabiana Cozza supera polêmica racial e reverencia Dona Ivone Lara

Miguel Arcanjo Prado

28/11/2018 09h00

Fabiana Cozza canta na Casa Natura Musical a obra de Dona Ivone Lara no show "A Dama Dourada", que será lançado em disco em 2019 pela Biscoito Fino: cantora supera com elegância e respeito à memória da Rainha do Samba a polêmica racial provocada no teatro – Foto: Felipe Giubilei – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Com elegância, força e respeito, Fabiana Cozza supera polêmica racial no teatro ao retornar para a música no show "A Dama Dourada", no qual reverencia a obra de Dona Ivone Lara e que será lançado em disco em 2019 pela gravadora Biscoito Fino.

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Fabiana Cozza em "A Dama Dourada", com Alessandro Penezzi
Avaliação:
Ótimo ✪✪✪✪✪

A cantora Fabiana Cozza enfrentou forte momento de sua carreira em junho deste ano, quando foi alvo de uma enorme polêmica racial nas redes sociais por ter sido convidada a interpretar a cantora e compositora carioca Dona Ivone Lara (1922-2018), a Rainha do Samba, no musical "Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro".

Os críticos da internet afirmaram que a pele de Fabiana seria clara demais para que ela pudesse ser Dona Ivone, mulher negra de pele escura, justificando seu ponto de vista pela tese do "colorismo", segundo a qual uma pessoa negra sofre mais racismo quanto mais escura sua pele for.

Na época, em meio a múltiplos ataques nas redes, Fabiana decidiu deixar o projeto teatral. Contudo, escolheu não atacar de volta quem a criticou. Muito pelo contrário. "Eu não sou uma vítima", disse à época em entrevista à colunista Eliane Brum, do jornal El País, fazendo ela mesma a mais brilhante e profunda análise sobre o episódio, no qual enxergou muita dor.

Se viver Dona Ivone Lara no teatro lhe foi negado, a música jamais questionou o talento e a devoção de Fabiana Cozza para com a obra de Dona Ivone Lara, de quem foi amiga íntima.

Fabiana é uma das cantoras de samba mais respeitadas não só de São Paulo quanto do Brasil, com farta trajetória trilhada desde seu nascimento, praticamente na quadra da escola Camisa Verde e Branco, da qual seu pai, Oswaldo dos Santos, é baluarte. A música esteve ao lado da artista naquele momento tão difícil e lhe apoiou fortemente nos bastidores durante o episódio de grande exposição pública.

E é para os braços da música que Fabiana Cozza volta, cantando justamente aquela que lhe foi proibida de viver no teatro: Dona Ivone Lara.

Na última sexta (23), ela apresentou para um público compenetrado e boquiaberto a cada verso o show "A Dama Dourada", acompanhado pelo exímio violonista Alessandro Penezzi. Ambos em uma química que envolveu toda a Casa Natura Musical, como que em um rito de passagem para tempos melhores.

O repertório do show, cujo título é o mesmo de um artigo universitário que Fabiana escreveu para a UFBA sobre Dona Ivone, é fundamentado em canções de Dona Ivone Lara e vai virar disco no próximo ano pela Biscoito Fino, ela anunciou no palco.

Fabiana Cozza canta Dona Ivone Lara no show "A Dama Dourada" ao lado do excelente músico Alessandro Tonezzi na Casa Natura Musical, arrepiando o público presente com tamanha devoção e respeito à obra da Rainha do Samba – Foto: Felipe Giubilei – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Todos ali viram Fabiana Cozza superar com extrema elegância a polêmica racial do teatro e retomar seu potente lugar na música, defendendo o samba e a sua negritude, sim — ela faz também um outro show, "Dos Santos", que leva o sobrenome de seu pai, que dedica exclusivamente às canções com temática afro-brasileira —, de uma maneira sutil e forte ao mesmo tempo, sem deixar de prestar toda a reverência à sua grande mentora e amiga Dona Ivone Lara, que, é importante dizer, havia escolhido Fabiana para interpretá-la no teatro.

Ao cantar "Tendência", clássico de Dona Ivone, os versos ganharam ainda maior profundidade diante de tudo que aconteceu. Foi de arrepiar a alma ouvir essa letra:

"Não, pra que lamentar o que aconteceu? Era de esperar. Se eu lhe dei a mão foi por me enganar. Foi sem entender que amor não pode haver. Sem compreensão, a desunião tem de aparecer. E aí está o que aconteceu. Você destruiu o que era seu. Você entrou na minha vida, usou e abusou, fez o que quis. Agora se desespera, dizendo que é infeliz. Não é surpresa pra mim. Você começou pelo fim. Não me comove o pranto de quem é ruim. E assim, quem sabe essa mágoa passando você venha a se redimir dos erros que tanto insistiu por prazer, pra vingar-se de mim. Diz estar carente de amor. Então você tem que mudar. Se precisar pode me procurar".

Quem viu o que aconteceu na Casa Natura Musical, caso do Blog do Arcanjo no UOL, sabe profundamente que Fabiana Cozza cantando Dona Ivone Lara é inquestionável. Só ousa ser contra isso quem jamais terá a mínima sensibilidade artística para compreender a força que emana quando sua voz encontra os versos da Rainha do Samba.

Diante da obra de Dona Ivone Lara, Fabiana Cozza é pura entrega verossímil.

"Não entendi o enredo desse samba, amor", Fabiana prosseguiu cantando, para logo dar indícios da sábia decisão tomada: seguir cantando Dona Ivone Lara, finalizando um ano tão turbulento em paz, prenunciando um novo "Alvorecer", como compôs a própria Dona Ivone: "Quero solução, sim, pois quero cantar, desfrutar dessa alegria que só me faz despertar do meu penar". E a paulistana ainda pegou emprestado o "Canto de Rainha", de Sombrinha e Arlindo Cruz em homenagem a Dona Ivone, para reafirmar: "Seu canto entrou na minha vida e fez o que quis. Hoje até posso afirmar: samba é minha raiz".

Viva Dona Ivone Lara. Viva Fabiana Cozza. Juntas.

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Dona Ivone Lara e Fabiana Cozza cantam juntas: relação de amizade profunda e puro respeito continua presente na música e no samba  – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Reencontro com a Rainha do Samba: Fabiana Cozza no show "A Dama Dourada" com canções de Dona Ivone Lara – Foto: Felipe Giubilei – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

O excelente violonista e diretor musical de "A Dama Dourada", com no qual Fabiana Cozza canta Dona Ivone Lara, Alessandro Tonezzi: trabalho vira disco pela Biscoito Fino em 2019 – Foto: Felipe Giubilei – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Voz potente: Fabiana Cozza no show "A Dama Dourada" com canções de Dona Ivone Lara – Foto: Felipe Giubilei – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Respeito à tradição do samba: Fabiana Cozza no show "A Dama Dourada" com canções de Dona Ivone Lara – Foto: Felipe Giubilei – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes Cênicas pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia e Band. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas de Cultura em Mídia Eletrônica do Brasil pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.