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Crítica: Gilberto Gil ressurge vigoroso em novo show e alegra corações

Miguel Arcanjo Prado

30/11/2018 08h05

Gilberto Gil canta no show "Ok Ok Ok": aos 76 anos e recuperado de um grave tratamento ele demonstra força e potência musical – Foto: Gustavo Henrique – @studio115bh – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Gilberto Gil volta aos palcos com demonstração de força e farta criatividade na turnê de seu recente álbum "Ok Ok Ok".

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Gilberto Gil em "Ok Ok Ok"
Avaliação: Ótimo ✪✪✪✪✪

O coração, com suas batidas significantes de vida, está presente o tempo todo no palco. Gilberto Gil é artista potente que consegue ressignificar em arte todos os momentos de sua vida, inclusive quando ela parece, assustadoramente, perto do fim.

Assim o faz em "Ok Ok Ok", show de seu álbum mais recente, imerso em certa dose de melancolia inicial, mas logo seguido de recuperação e fé na vida.

"Pro Dia Nascer Feliz", como fez questão de cantar, revisitando Cazuza com elegância e propriedade na noite desta quinta (29), em um lotado e compenetrado Teatro Bradesco, em São Paulo.

Cercado de sua potente banda, praticamente familiar, com filhos (Nara, Bem e José) e agregados, na qual se destaca Nara Gil nos vocais com a leveza de seu canto abrilhantado por seu bailado de ijexá prazeroso e ancestral, Gil começou o concerto justamente com a faixa-título do álbum.

A canção é seu posicionamento diante de tudo o que ocorreu e ocorre no Brasil, espécie de resposta sofisticada à imprensa, sempre questionadora de sua opinião. Gil reforça o que todos nós sabemos: a música sempre foi e é seu melhor palanque e discurso.

Gilberto Gil e sua banda em "Ok Ok Ok" – Foto: Gustavo Henrique – @studio115bh – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

O tratamento de uma grave doença nos rins que enfrentou sob cuidados do médico Roberto Kalil — que ganha divertida canção-propaganda-agradecida no show — é evocado durante a primeira parte do concerto, mais soturna, imersa em dores.

O baterista Domenico Lancellotti toca uma das músicas com o rosto coberto por um pano preto, evocando no palco a morte à espreita, arrepiando a todos.

Mas Gil convalescente também guarda lugar para amores, como o nascimento do neto Sereno, filho de Bem Gil — guitarrista e diretor musical do disco e do show — com a cantora Ana Cláudia Lomelino, e da primeira bisneta, "Sol de Maria", neta da filha Preta Gil, sem deixar de lembrar sua origem, com a evocação de seus pais na confessional "Pai e Mãe".

Aliás, o show é intimista, com Gil em casa, cercado de cuidados dos seus, repleto de amor, seja de sua mulher e fiel escudeira, Flora, dos filhos, netos, genros, noras e a bisneta recém-chegada.

Filha primogênita, Nara Gil assume os vocais do show "Ok Ok Ok", de seu pai, Gilberto Gil – Foto: Gustavo Henrique – @studio115bh – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Em certo momento, aproveita para paparicar Nara Gil no palco. "Tive oito filhos, mas a primeira é a primeira. Nara é a primogênita", diz, com uma Nara satisfeita e encabulada ao fundo. E lembra uma anedota da infância de Narinha, como a chama repleto de carinho: "Quando ela tinha uns dois anos, ela um dia falou para mim: 'É o amor, papai, é o amor'. Tinha só dois anos, más já sabia tudo".

A competente banda é formada por Bem Gil (violão e guitarras e direção musical com o pai), Nara Gil (vocais) e José Gil (bateria e percussão), Domenico Lancelloti (bateria e percussão), Bruno Di Lullo (baixo), Danilo Andrade (Teclados), Thiagô Queiroz (sopro) e Diogo Gomes (sopro).

Gil reserva espaço também para celebrar parceria recentemente completada com João Donato em "Uma Coisa Bonitinha", seguida de outra pérola da dupla formada entre o baiano e o acreano: "Lugar Comum", com seu clima praieiro, simples e sofisticado.

Outro músico reverenciado por Gil é Yamandu Costa, que ganha a bela "Yamandu", na qual celebra a genialidade do violonista gaúcho, demonstrando ele próprio ser também um grande estudioso de seu violão.

Ambientado pela gigante tela colorida do artista paulistano Luiz Zerbini, ícone da Geração 80, o show traz Gil e sua banda vestidos com elegantes e sofisticados figurinos de linho em tons pastéis criados por Flavia Aranha que reluzem na luz sutil de Ivan Marques.

Gilberto Gil e sua banda diante do cenário de Luiz Zerbini e vestidos por figurinos de Flavia Aranha – Foto: Divulgação @gilbertogil – Blog do Arcanjo – UOL

Diante de todo esse passeio por farta criatividade musical na penúria, é com "Pro Dia Nascer Feliz" que Gil confirma seu despertar para a vida repleta de beleza e juventude, abrindo espaço logo na sequência para os tambores do Pelourinho em "Avisa Lá", do Olodum, que mostram um Gil vigoroso.

"Ouço todos os corações batendo, todos os corações do mundo batendo", escolhe encerrar o show, cantando a nova "Ouça", que ganhou clipe na Copa da Rússia. Não se demora a presentear o público com bis triplo composto de "Afogamento", "Extra" e "Maracatu Atômico", que pede para todos cantarem juntos, em coro.

Contudo, o momento mais tocante do show, na visão deste crítico, é quando Gil revisita "Se Eu Quiser Falar com Deus". A canção composta em 1980 ganha novo significado depois de tudo o que passou o cantor e compositor baiano. Após um mal tamanho, Gil consegue alegrar não só o seu como os nossos corações.

PS. Já que o show é intimista e confessional, aqui também vai a confissão do crítico: Para mim, ver Gil no palco é revistar a memória de minha avó, sua fiel admiradora. Dona Oneida Maria da Silva Oliveira, a mãe Gigi, que chamava Gil carinhosamente de "meu neguinho". O amor e o respeito eram tantos que ela o convidou em 1982, comigo recém-nascido, a apadrinhar o primeiro bloco afro de Minas Gerais, o Afoxé Ilê Odara, fundado por ela. O que Gil aceitou com gosto, estreitando ainda mais aquela relação de amizade e querer-bem. Foi com vovó Oneida que aprendi, menino, a ouvir os discos de vinil de Gil em volume alto. E a dançar, com ela, suas músicas, em manhãs e tardes de pura festa. Presenciar Gil aos 76 anos com tamanha força musical e de superação é cumprir, de certo modo, o desejo de vovó. Aplaudindo, também por ela, a seu neguinho.

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Gilberto Gil no show "Ok Ok Ok" – Foto: Gustavo Henrique – @studio115bh – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes Cênicas pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia e Band. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas de Cultura em Mídia Eletrônica do Brasil pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.