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Crítica: Hotel Mariana comove público ao dar voz às vítimas da lama em MG

Miguel Arcanjo Prado

29/01/2019 08h28

O ator Munir Pedrosa em cena de "Hotel Mariana": ele colheu depoimentos após o rompimento da barragem que assolou Mariana em 2015; com novo rompimento em Brumadinho, peça ganha ainda maior relevância e provoca comoção do público – Foto: Allan Bravos/Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Assombrados pela atualidade do horror em Brumadinho, relatos reais de vítimas do rompimento da barragem em Mariana em 2015 comovem o público paulistano nesta quarta temporada da peça "Hotel Mariana", na Oficina Cultural Oswald de Andrade (r. Três Rios, 363, Bom Retiro), segunda e terça, 20h, até 12 de fevereiro, com entrada gratuita.

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
"Hotel Mariana"
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪

O rompimento da barragem em Brumadinho na última sexta (25), com seu terrível rastro de lama, destruição e centenas de mortes ainda não contabilizadas, deixa a peça "Hotel Mariana" ainda mais tocante e necessária de ser vista.

A sessão desta segunda (28) na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, assistida pelo Blog do Arcanjo no UOL, estava completamente esgotada, com o público altamente comovido ao fim da peça.

A montagem, que em breve dará origem também ao filme "Desterrados", foi idealizada pelo ator Munir Pedrosa. Com faro de um bom repórter e sensibilidade ímpar, ele viajou até Mariana, em Minas Gerais, logo após o rompimento da barragem de lamaçal com dejetos da mineração que destruiu os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, matando 19 pessoas e acabando com casas e todos os pertences de centenas de famílias.

Com arguta disposição para a escuta, Pedrosa gravou depoimentos de sobreviventes e ainda de um ativista ambiental, que são reproduzidos pelo elenco coeso por meio da técnica do verbatim, aquela na qual atores escutam em fones as falas reais e as reproduzem de forma praticamente instantânea.

A encenação proposta pelo sutil diretor Herbert Bianchi aposta justamente na força documental dessas palavras. Elas ganham ainda maior grau de comoção diante da delicadeza do sotaque mineiro, reproduzido com impressionante fidelidade pelos atores Anna Toledo, Bruno Feldman, Clarissa Drebtchinsky, Fani Feldman, Isabel Setti, Letícia Rocha, Marcelo Zorzeto, Munir Pedrosa, Rita Batata e Rodrigo Caetano. Todos altamente presentes em cena.

Com seu sotaque carregado, e mirada simples e tocante para a vida, Pedrosa brilha na pele de Arnaldo Mariano Arcanjo, o herói da vida real de força descomunal que salvou várias vidas em Mariana.

O cenário de Marcelo Maffei, com a lama que carrega tudo ao fundo, ambienta o relato daqueles personagens, iluminado por uma sutil luz concebida por Rodrigo Caetano, que faz os recortes de fala das personagens vestidas pelo figurino em tons pastéis de Bia Pieratti e Carol Reissman, repleto de referências ao modo de vestir de um povo simples, que cultiva sua vida interiorana.

O recorte dramatúrgico escolhido por Pedrosa e Bianchi é potente, não buscando maniqueísmos fáceis, mas, sim, expondo toda a complexidade do domínio financeiro e cultural que a mineração exerce nas populações simples do interior mineiro há séculos, altamente dependente de suas atividades para o ganha-pão diário, provocando uma dicotomia na qual a sobrevivência está assombrada por risco de morte iminente.

A religião, uma das bases mais fortes da cultura mineira, altamente barroca até os dias atuais, surge assim como conforto e artimanha insciente de justificativa para o irremediável.

O pendor barroco ainda está presente na ressignificação da dor em poesia e música por aqueles personagens simples e ao mesmo tempo imbuídos de alto grau de sofisticação. Boa parte dilui a primeira revolta e sede de Justiça em resignação comovente diante da força da grana que ergue e destrói coisas belas, como cantou Caetano — talvez isso seja fruto de uma triste sabedoria centenária de saber quem é que manda.

Dessa forma, a fala lúcida do jovem ambientalista, com seu discurso potente, mas desesperadamente duro, vai de encontro à delicadeza de fala dos outros personagens, fazendo com que a verdade daquele rapaz repleto de razão seja praticamente ininteligível para seus conterrâneos.

O confronto de formas de discursos produz uma ruptura na comunicação que deixa em desalento o próprio personagem e também o público. Parece só restar uma desperança diante da verdade cortante da fala daquelas vítimas que carregam no próprio ser o peso repleto de orgulho e pavor da palavra mineiro.

É de dar um nó na garganta.

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes Cênicas pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia e Band. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas de Cultura em Mídia Eletrônica do Brasil pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.