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"Limitar Lei Rouanet a R$ 1 milhão é decretar o fim da Broadway brasileira"

Miguel Arcanjo Prado

2011-04-20T19:12:47

11/04/2019 12h47

Marllos Silva, produtor teatral e idealizador do Prêmio Bibi Ferreira: "Limitar Lei Rouanet em R$ 1 milhão é decretar o fim da Broadway brasileira" – Foto: Naíra Messa – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Os produtores de musicais no Brasil estão aterrorizados com as mudanças previstas na Lei Rouanet de incentivo à cultura na esfera federal, anunciadas pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), que deseja limitar seu teto de incentivo a R$ 1 milhão, ao contrário dos R$ 60 milhões atuais. O setor gera milhares de empregos no país e possui superproduções que empregam centenas de artistas e técnicos, com orçamentos que ultrapassam o novo teto. O produtor, ator e diretor Marllos Silva, criador do Prêmio Bibi Ferreira, mais tradicional premiação dedicada ao gênero musical no Brasil, escreve artigo no qual comenta a mudança anunciada pela Presidência da República e cuja publicação aqui no Blog do Arcanjo no UOL foi por ele autorizada. E avisa: "É o fim da Broadway brasileira". Leia com toda a calma do mundo.

O Fim da Broadway Brasileira

Por Marllos Silva*

Nova York, conhecida como a capital do mundo, tem como um dos seus pontos turísticos mais importantes e gerador de renda a Broadway.

São Paulo vinha nos últimos 20 anos construindo uma filial tupiniquim. Neste período, os musicais se tornaram um ponto importante da economia criativa da cidade, um ponto turístico forte, um gerador de renda, fomentador cultural, exportador de profissionais, o maior formador de público cultural do país, mas está com os seus dias contados.

Após o anúncio do presidente da República que a Lei Rouanet terá um teto de R$ 1 milhão, estas ações vão deixar de existir. E os 2.000 trabalhadores diretos e os mais de 5.000 indiretos vão ter de conviver com o fim do seu sustento.

Amanda Acosta à frente do elenco de "Bibi, uma Vida em Musical", que a consagrou com os maiores prêmios do país: musicais contam não só histórias estrangeiras, como também as nossas histórias, realizando importante papel de formação cultural – Foto: Guga Melgar/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo – UOL

Nos últimos 20 anos, o mercado de teatro musical cresceu 1.100% no número de produções. A partir deste crescimento, que foi impulsionado pela produção de musicais de dramaturgia estrangeira, surgiu uma safra de musicais nacionais que hoje já superaram os estrangeiros em número total. Apenas entre 2012 e 2018 houve um crescimento de 182% no número de musicais brasileiros. Nestes seis anos, 120 musicais foram encenados, sendo 104 com o apoio da Lei Rouanet.

Este crescimento foi acompanhando pelo ávido desejo do público em lotar os grandes teatros para assistirem aos musicais. Uma geração inteira cresceu admirando profissionais de teatro musical. Surgiram novas escolas dedicadas à formação de profissionais especializados em teatro musical, só em São Paulo são cinco centros de estudos e formação deste tipo de profissional.

Estes mesmos profissionais hoje ganham o mundo e levam o nome do Brasil para fora, passamos a ser exportadores de talento, muitos dos nossos atores estão na Alemanha, México, Espanha, sendo protagonistas de grandes musicais.

Revelado em São Paulo, o astro brasileiro dos musicais Tiago Barbosa protagoniza "O Rei Leão" na Espanha: Brasil hoje exporta talentos para o mundo e virou centro de excelência em superproduções musicais, que dependem da Lei Rouanet – Foto: Nelson Pará – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo – UOL

Teatros foram construídos buscando atender esta demanda. Neste período, apenas em São Paulo surgiram: Teatro Bradesco, Net, Santander, Prevent Senior, Opus, outros foram adaptados ou ganharam sobrevida como Alpha, Frei Caneca e outros que estão para inaugurar ou que posso ter eventualmente esquecido de mencionar.

Sem contar os outros estados que receberam investimento para construção ou reformas de teatros buscando oferecer estrutura para receber as turnês dos musicais, cidades como Recife, Fortaleza, Natal, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre são pontos obrigatórios para as turnês dos musicais.

Profissionais ganharam novas oportunidades e um novo mercado: diretores musicais, maestros, músicos, coreógrafos, construtores de cenário, o mercado se adaptou às necessidades e trouxe os designers de som, stage manager e management.

Kiara Sasso ao lado de Saulo Vasconcelos no musical "O Fantasma da Ópera" em 2005: marco do mercado efervescente de musicais que se instalou em São Paulo e que depende da Lei Rouanet para sobreviver, empregando milhares de profissionais da economia criativa – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Empresas de publicidade, assessoria de imprensa, espaços de ensaio, todos especializados em atender este mercado surgiram. Agências de viagens criaram pacotes de turismo cultural para cidade de São Paulo, tendo como foco principal a ida aos teatros.

Dificilmente você vai a uma sessão de teatro no fim de semana e ao término não se depara com vans ou ônibus de excursões. Impacto direto em hotéis, restaurantes, shoppings. Uma parceria com o turismo de negócio foi criada para atender e entreter este tipo de turista.

Escolas públicas, ONGs passaram a levar os seus alunos ao teatro em quantidade muito maior, aumentando o interesse e a frequência, não apenas para assistirem aos espetáculos, mas para participarem de palestras e debates. Apresentando a eles mais uma opção de mercado de trabalho. Anualmente mais de 150 mil ingressos são entregues à população de forma gratuita ou em sessões populares.

Cena de "Peter Pan, O Musical da Broadway", que conquistou sucesso de público em São Paulo no ano passado: musicais geram turismo cultural e alimentam economia de hotéis, empresas de transporte e restaurantes – Foto: Marcos Ribas/Brazil News – Blog do @miguel.arcanjo – UOL

Entretanto, para que essa roda gire, é necessário grandes investimentos. Todo este retorno à população e ao governo, através da geração de mais impostos, só acontece graças à Lei Rouanet. Para se produzir um musical grande, em média, envolvemos 200 pessoas diretamente, um musical médio, 100 pessoas.

Todos estes dados são apenas de São Paulo, não inseri números sobre turnês pelo país, as temporadas cariocas, mineiras, cearenses, sim, porque os musicais estão ganhando outros Estados além do eixo.

Pergunto com o coração aberto:

Sr. Presidente, depois de todas estas informações, o senhor realmente acha que com R$ 1 milhão é possível produzir um espetáculo que envolva 100 pessoas, por seis meses? Incluindo divulgação, locação de equipamentos, teatro, construção de cenário e salário de todos os funcionários.

Cena de "O Frenético Dancin'Days", em cartaz no Teatro Opus, em São Paulo: com teto da Lei Rouanet em R$ 1 milhão, superproduções de grande porte se tornarão impossíveis – Foto: Annelize Tozetto – Divulgação Festival de Curitiba – Blog do Arcanjo – UOL

E não podemos jamais esquecer que somos obrigados a dar um desconto 50% da nossa bilheteria para estudantes, idosos, professores da rede pública e sabe-se lá mais quem, sem receber nenhum subsídio por conta deste desconto. Ah! Que inveja das empresas de transporte público, que recebem seu subsídio no bilhete único.

Certamente, o senhor desconhece, mas nós produtores, trabalhamos em média, dois a três anos antes de um espetáculo começar a ensaiar, esse período todo sem receber um centavo. Apenas apostando em um projeto, que nem sempre dá certo.

Amanda Acosta e Daniel Boaventura em "My Fair Lady", sucesso de 2007 e marco dos grandes musicais no Brasil, que só se firmaram graças à Lei Rouanet – Foto: Jairo Goldflus – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo – UOL

Estou aqui à sua total disposição para mostrar, com dados reais, que limitar os projetos em R$ 1 milhão é assassinar toda uma cadeia produtiva.

Este não é um pedido, é um apelo por socorro! Não prossiga com esta ação, ela irá causar o desemprego de muitas famílias que hoje tiram o seu sustento do teatro musical.

*Marllos Silva é ator, diretor, dramaturgo e produtor, além de criador do Prêmio Bibi Ferreira e se define como "mais um sobrevivente".

Cena do musical "Hair", sucesso de 2010: indústria dos musicais gera milhares de empregos pelo Brasil; com teto na Lei Rouanet, artistas e técnicos podem ficar desempregados; outros setores da economia, como hotéis e restaurantes, também sentirão o baque econômico – Foto: Guga Melgar – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo – UOL

 

Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes, Risadaria e Aplauso Brasil. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas do Brasil na categoria Cultura em Mídia Eletrônica pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.