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Crítica: Obrigatório, musical Cole Porter tem afinação aliada a ótimo texto

Miguel Arcanjo Prado

28/06/2019 09h52

"Cole Porter – Ele Nunca Disse Que me Amava": teatro musical de alta qualidade com atrizes que cantam de verdade em curta temporada no Teatro Porto Seguro – Foto: Daniel Coelho – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Bons espetáculos musicais, mais do que entreter a plateia, também costumam formar culturalmente seu público. Este é o caso de "Cole Porter – Ele Nunca Disse Que me Amava", encenado pela dupla Charles Möeller e Claudio Botelho.

Eles são grandes especialistas e responsáveis pelo sucesso do gênero no país e foram justamente alçados a esta posição de uma grife de excelência no estilo com esta montagem, 19 anos atrás. Ela apresenta aos espectadores mais de 30 canções do gênio musical norte-americano Cole Porter (1891-1964), além da própria trajetória do compositor, contada por seis mulheres importantes em sua vida.

A montagem apresenta com respeito à obra para as novas gerações aquelas canções imortalizadas pela Broadway e pelos lendários filmes musicais hollywoodianos. Isso, por si só, já seria uma tarefa digna de aplauso de pé, sobretudo feita em um país mergulhado na ignorância do seu próprio obtuso umbigo, como é o caso do Brasil contemporâneo.

Mas, para além disso, há ainda a dádiva de o público poder apreciar o trabalho preciso de seis excelentes cantoras-atrizes, tipo de artista que deveria ser obrigatório em qualquer musical que se preze, ao contrário de algumas estrelas televisivas que se aventuram pelo gênero sem ter o mínimo talento que o mesmo exige. Coisas do Brasil e de patrocinadores que só pensam em estrelas globais.

Potentes e afinadas: atrizes em cena de "Cole Porter – Ele Nunca Disse Que me Amava" – Foto: Daniel Coelho – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Bom, mas fato é que em "Cole Porter" isso não acontece. As artistas no palco têm, evidentemente, farto talento para o canto, não só concedido por Deus ou seus respectivos DNAs, como também lapidados por elas por exaustivas classes, o que produz resultado final absolutamente técnico mesclado a um alto teor carismático-interpretativo.

Por isso, dá gosto de assistir a Alessandra Verney e Stella Maria Rodrigues, Malu Rodrigues, Marya Bravo, Analu Pimenta e Bel Lima, as seis talentosas artistas em questão. Cada uma, a seu modo, abrilhantando o todo do coeso espetáculo montado pela primeira quando ainda fazer musicais de grande porte no Brasil parecia um sonho intransponível — como assustadoramente parece ser outra vez agora.

Outra dádiva é o texto de Charles Möeller, que tinha 32 anos quando o escreveu. É deliciosamente inteligente e irônico, sobretudo nas falas da mãe de Cole Porter, interpretada com uma construção ao início impactante com suas tintas fortes, mas que com o tempo cativa o público, mérito da atriz Bel Lima, que não duvida do efeito do tempo matemático do humor.

Ao optar por apresentar o protagonista pela visão de seis mulheres que o cercaram, o espetáculo deixa sua história ainda mais rica e nada maniqueísta. A polifonia de olhares sobre o personagem o deixa mais rico.

Cole Porter: lenda da música norte-americana ganha olhar multifacetado no musical "Cole Porter – Ele Nunca Disse Que me Amava", de Möeller e Botelho – Foto: Daniel Coelho – Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Assim, Möeller e Botelho convidam o público a criar seu próprio Cole Porter, já que o mesmo só surge como voz em off de Claudio Botelho, não se personificando no corpo de nenhum ator.

O brilho da montagem se complementa na coreografia sofisticada e simples de Möeller — o número da sombrinhas lembra o melhor do teatro em conseguir grandes efeitos com pouco, mas um pouco ensaiado exaustivamente, é claro.

O espetáculos ganha matizes interessantes nos arranjos requintados de Marcelo Castro, um fiel aliado da direção musical e versões de Claudio Botelho; na cenografia simplória, porém inventiva de Rogério Falcão; no som límpido de Marcelo Claret; e na iluminação soberba de Paulo Cesar Medeiros, com seus contras oníricos.

A ficha técnica ainda traz coordenação artística de Tina Salles, e produção de Luciana Conde e Carla Reis.

"Cole Porter – Ele Nunca Disse Que me Amava" é um musical do tipo obrigatório. Sobretudo para quem deseja conhecer as origens do próprio gênero, ao som de uma das melhores músicas produzidas no mundo, interpretadas por atrizes-cantoras à altura. O aviso deste crítico é direto: corra para assistir, porque a temporada paulistana é curtíssima.

"Cole Porter – Ele Nunca Disse Que me Amava"
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪
Quando: Sextas e sábados, às 21h.Domingos, às 19h. 130 min. Até 7/7/2019
Onde: Teatro Porto Seguro (al. Barão de Piracicaba, 740, Campos Elíseos, São Paulo, 11 3226.7300; transporte grátis de ida e volta ao metrô Luz, informar-se telefonicamente)
Quanto: R$ 120; R$ 90 e R$ 60, em valores de inteira.
Classificação: 12 anos

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes, Risadaria e Aplauso Brasil. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas do Brasil na categoria Cultura em Mídia Eletrônica pelo Prêmio Comunique-se.

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