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Opinião: Fim do Todo Seu de Ronnie Von na Gazeta é duro golpe na cultura

Miguel Arcanjo Prado

22/07/2019 09h00

Ronnie Von: após 15 anos a TV Gazeta decidiu acabar com o programa "Todo Seu", espaço cultural importante na TV aberta – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

O fim do programa "Todo Seu" de Ronnie Von após 15 anos na TV Gazeta, anunciado em primeira mão pelo colunista do UOL Flávio Ricco na última sexta (19) e pegando a todos de surpresa, é um duro golpe não só nas bonitinhas telespectadoras do eterno Pequeno Príncipe, como na cultura brasileira como um todo.

Afinal, Ronnie Von sempre abriu sua mesa de jantar e, mais recentemente neste ano, de almoço, aos mais variados artistas que divulgaram em seu programa seus espetáculos, shows e outros projetos.

Este vosso colunista mesmo esteve em seu almoço na última quinta (18), acompanhado do diretor Robson Catalunha, para falar da peça "Entrevista com Phedra", ainda sem saber que aquele seria o penúltimo programa — talvez o corte no dedo do apresentador ao vivo durante o papo de Ronnie com a colunista Cristina Padiglione tenha sido um presságio do que viria no dia seguinte.

Dono de uma conversa culta e realmente interessada no outro, Ronnie sempre fez de seu espaço na televisão um lugar agradável para se estar e para se assistir, no qual todo convidado era tratado com toda dignidade do mundo — isso diante das câmeras e também nos bastidores, como qualquer assessor que já levou um famoso ou anônimo à atração pode comprovar.

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Sem dúvida, Ronnie Von é hoje o apresentador mais elegante e culto da TV brasileira, dono de repertório farto. À sua altura estava apenas Jô Soares, outro notável parceiro dos artistas, que infelizmente deixou um vácuo ainda insubstituível no vídeo desde o fim de 2016.

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É preciso que a TV brasileira entenda a importância de nomes como Ronnie Von em sua grade e não mergulhe por completo na futilidade e no sensacionalismo barato que traz audiência imediata, mas não duradoura ou respeitada.

É fato que o país mergulhou em uma crise que parece só se agravar – motivo alegado pela Gazeta para o fim do "Todo Seu", de Ronnie Von, e também do "De A a Zuca", de Celso Zucatelli — e que os novos hábitos digitais deixam a televisão aberta cada vez mais obsoleta. Contudo, abrir mão da qualidade pode ser uma atitude desesperada que pode levar o veículo a se afastar ainda mais do telespectador qualificado e com real poder de compra.

Ronnie Von, assim como seu time de colunistas, é garantia de um papo instruído e agradável — tal qual também era o de sua amiga Hebe Camargo —, o que o torna uma verdadeira relíquia de uma TV feita em um tempo ainda não ensandecido ou caótico.

Em um Brasil tão obtuso como o que vivemos, ter uma figura culta como Ronnie Von no vídeo é uma dádiva, uma espécie de garantia de um mínimo de civilização na TV aberta. Por isso, a cultura se ressente do fim do seu programa, como quem perde um importante aliado. Por isso, qualquer amante das artes, da ciência, da inteligência e da qualidade na televisão torce veementemente para que esta entenda que Ronnie Von é figura indispensável.

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes, Risadaria e Aplauso Brasil. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas do Brasil na categoria Cultura em Mídia Eletrônica pelo Prêmio Comunique-se.

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