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“Vamos ter de usar tudo para vencer maré terrível”, diz Mauricio Tizumba

Miguel Arcanjo Prado

08/08/2019 15h30

Grande nome das artes em Minas Gerais, Mauricio Tizumba faz o Festejo do Tambor Mineiro no dia 18 de agosto com participação de Zezé Motta em BH: "Vamos ter de usar tudo para vencer essa maré terrível" – Foto: Patrick Arley/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Mauricio Tizumba é um dos artistas mais importantes de Minas Gerais, com trânsito fluente na música, no teatro e na cultura negra mineira. No próximo dia 18 de agosto, um domingo, a partir das 10h, ele celebra o tradicional Festejo do Tambor Mineiro, desde 2002 como forma de celebrar o congado mineiro, com participação nesta edição da atriz Zezé Motta.

A expectativa é receber mais de 5.000 pessoas na rua Ituiutaba, no bairro Prado, em Belo Horizonte. A entrada é grátis, mas pede-se ao público que leve 1 kg de alimento não-perecível a ser distribuído às comunidades afro-mineiras das irmandades do Rosário.

Mauricio Tizumba conversou com exclusividade com o Blog do Arcanjo nesta Entrevista de Quinta, na qual falou sobre seu legado, a situação do povo negro e o Festejo do Tambor Mineiro como ato de resistência: "Vamos ter de usar tudo para vencer essa maré terrível", afirma, antes de lembrar que na celebração "não tem espaço para os que cultuam o ódio e a intolerância".

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Tizumba, o que o Tambor Mineiro representa na sua vida?
Mauricio Tizumba – Força ancestral que habita em mim. E o tum tum tum, ocupando o lugar do tá tá tá. Ligação constante ao reinado negro (congado), ligação com a periferia da cidade de Belo Horizonte, que é tão fértil e forte, e também com várias cidades do interior. O Tambor Mineiro representa vitória, fé e felicidade.

Congado e fé que sobrevive nas novas gerações: criança toca no Festejo do Tambor Mineiro, em Belo Horizonte – Foto: Leo Lara/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado – Você acha que o povo negro corre risco de retroceder nos avanços que conquistou nos últimos tempos?
Mauricio Tizumba – Isso pra mim é uma coisa muito nítida, até mesmo porque o co-mandante maior da nação brasileira já tinha apontado o dedo onde ia desmanchar, mesmo antes de entrar. Queria queimar a minha língua, mas não vai dar, pois vejo que a cada dia piora. Cada palavra, cada ato que vem dele é para nos massacrar. Isso porque, também, tudo que vem da cultura popular, da arte popular, para essa gente racista não tem valor. Apesar de explorar e usar até o osso e ainda querer nos calar durante a travessia do Atlântico, com tantos anos de escravidão, literalmente cortando línguas, não nos calaram. Nos últimos 15 anos ficamos mais fortes e isso incomodou e estão vindo pra cima com muito ódio. Por isso, vamos ter que usar tudo pra vencer essa maré terrível que o país atravessa. Artigo 5º neles.

Congado, reisado e manifestações afro-mineiras ganham terreno no Festejo do Tambor Mineiro – Foto: Leo Lara/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Você é um dos nomes responsáveis por BH hoje se reconhecer cada vez mais como uma cidade também negra. Como enxerga esse processo?
Mauricio Tizumba — Belo Horizonte nasceu pra ser uma cidade só de branco, pois Ouro Preto já estava quase toda preta, e eles, os brancos, não suportavam essa convivência e também morriam de medo de rebelião. E, assim, nascem os brancos fugidos de Vila Rica para o Curral Del Rey. Mal sabiam eles que a região já estava ocupada por negros fugidos e forros já aquilombados. Procurem saber do alforriado Matias e tantos outros já vivendo nessas bandas. O tempo passa e na vida as coisas mudam. Em 1945, no Rio de Janeiro, através da arte, Abdias do Nascimento, que passa por Léa Garcia, Milton Gonçalves, Ruth de Sousa, Zezé Motta e tantos outros, apontam caminhos importantes para o nascimento do movimento negro, que chega em Belo Horizonte nos anos 1970. Quando cheguei já estavam cabeças pensantes como Marcos Cardoso, D. Efigenia Pimenta, Professor Jorge Posada e muito mais gente, entrei no Movimento Negro Unificado (MNU) nesta época e, então, virei militante. E não mais importante. Importantes são os pretos velhos que vieram primeiro, entre eles muitos morreram e muitos venceram.

Grande atriz, Zezé Motta participa do Festejo do Tambor Mineiro no dia 18 de agosto em BH- Foto: Jardiel Carvalho/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — O que a presença de Zezé Motta nesta festa significa?
Mauricio Tizumba — Representa uma voz forte que soma. E no variado que somos como povo negro. No festejo já passaram Elza Soares, Chico César, Renegado, meu parceiro eterno Sérgio Pererê, Titane, Mart'nália e mais um tanto de gente negra boa e forte.

Herança artística: filha de Mauricio Tizumba, Júlia Tizumba é destaque no musical Elza e toca o tambor mineiro aprendido com o pai – Foto: Annelize Tozetto/Divulgação Festival de Curitiba – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Sua filha Julia Tizumba faz sucesso no musical Elza. Fica orgulhoso?
Mauricio Tizumba — [ri, feliz] Orgulho total. Ela pegou a bandeira, a mesma minha e segue mais forte ainda. E mais adiante. Poderia sofrer críticas por ser filha de artista e seguir exatamente na mesma trilha, mas isso é que é o diferencial dela: acreditar na nossa negritude em todas as artes para, através dela, contribuir pra um mundo melhor. Vai ter pelo caminho muitos pepinos dolorosos, mas vai romper. Ela é filha de Oxum Apara, brava, aquela que come com Iansã, conhece bem a força da correnteza dos rios, ventanias e tempestades. Hoje, segue em frente, mesmo caminho, mas só que diferente. Além de palco, rua, becos e guetos mundo afora, busca empretear mais a academia com cota ou sem cota, com mestrado de arte negra na UFMG e caminhando para o doutorado, para falar da mulher e negritude nas artes. E, dessa forma Júlia vai empretecendo nosso ao redor e assim a vida melhora muito.

Mauricio Tizumba no Festejo do Tambor Mineiro: "Não tem espaço para os que cultuam o ódio e a intolerância" – Foto: Patrick Arley/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Quem for ao Festejo do Tambor Mineiro sentirá que tipo de energia?
Mauricio Tizumba — Só de positividade, de alegria, de felicidade, de esperança, de igualdade. De muito amor e paz. O Festejo é um lugar que não tem espaço para os que cultuam o ódio e a intolerância.

Agradecimento: Jozane Faleiro.

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes, Risadaria e Aplauso Brasil. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas do Brasil na categoria Cultura em Mídia Eletrônica pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.