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Crítica: Entrevista com Phedra emociona ao misturar vida e morte da diva

Miguel Arcanjo Prado

19/08/2019 06h00

Márcia Dailyn como Phedra D. Córdoba na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado, sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Annelize Tozetto – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Por Mariana Queen Nwabasili*
Crítica convidada
Fotos Annelize Tozetto

O teatro é um ritual, e a peça "Entrevista com Phedra", em cartaz às segundas-feiras, 21h, no Espaço dos Satyros Um, na região central da capital paulista, é a mais recente evidência disso.

Baseada em fatos reais, a obra homenageia e revive memórias de Phedra D. Córdoba, artista cubana transexual falecida em 2016 que se tornou ícone e diva do teatro underground de São Paulo ao fazer parte da Cia. de Teatro Os Satyros.

Na história, Phedra conhece o jornalista Miguel Arcanjo Prado debruçada sobre uma sarjeta, enquanto chora devido a um parecer negativo de seu diretor de teatro ao seu trabalho – afinal, imagine o quanto pode magoar uma diva o confronto com a dúvida sobre sua grandeza e potencial. Miguel a consola, reconhece sua peculiaridade e decide entrevistá-la. Boa parte da peça se dá durante a visita do jornalista ao lendário apartamento da diva localizado na praça Roosevelt para a tal entrevista.

Raphael Garcia e Márcia Dailyn na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado, sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Annelize Tozetto – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Em um período como o atual, marcado pela apreciação virtual e on demand de narrativas ficcionais, a obra, primeira dramaturgia do jornalista e crítico de arte Miguel Arcanjo Prado e dirigida por Juan Manuel Tellategui e Robson Catalunha, mostra que presenciar, em coletivo, a representação de personagens que existiram por meio da atuação ao vivo de corpos (em carne e osso) que (re)existem ainda faz diferença para o alcance da catarse como parte da experiência estética: ao final da sessão de estreia no dia 8 de julho boa parte do público, majoritariamente composto por frequentadores dos teatros da Praça Roosevelt, não conteve as lágrimas.

Raphael Garcia e Márcia Dailyn na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado, sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Annelize Tozetto – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Ao menos dois artifícios artísticos podem ser destacados como fundamentais para tal efeito entre os espectadores. Primeiro, a genial atuação da atriz Márcia Dailyn, que dá vida a uma Phedra bem-humorada, caricata e enérgica, e a de Raphael Garcia, que interpreta Miguel Arcanjo, conseguindo reproduzir de forma sutil os cacoetes mineiros do jornalista nascido em Belo Horizonte (MG).

Depois, o acertado formato do clímax da peça que tanto emocionou o público: jogando com o repertório da audiência a respeito da morte da diva na vida real, já no caminho para o final do espetáculo, vemos em cena a protagonista mencionar nominalmente outras personagens (da vida real) dos teatros da Praça Roosevelt, enquanto aponta para algumas delas que estão (imaginariamente?) na plateia e diz o quanto sente saudades de cada uma.

Márcia Dailyn na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado, sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Annelize Tozetto – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Ao mesmo tempo que o momento-clímax mistura de forma perspicaz ficção e realidade e representações das memórias e saudades de uma Phedra viva e de uma Phedra morta/vinda da morte, fica a curiosidade se a montagem em um teatro que não o Espaço dos Satyros Um, justamente na Praça Roosevelt, recinto artístico da diva que a peça homenageia, tenha o mesmo efeito catártico sobre o(s) público(s).

Com relação especificamente à mistura entre realidade e ficção que a obra propõe, vale ressaltar diferentes níveis biográficos – lembremos da inegável veia jornalística do dramaturgo – que ela parece acionar e dar visibilidade por meio da ficção: a personalidade e as memórias da Phedra D. Córdoba da vida real; um recorte das relações interpessoais em meio ao teatro alternativo da cidade de São Paulo; o entusiasmo jornalístico de Miguel Arcanjo Prado no lido também com as personagens reais com as quais se depara na cada vez mais rara cobertura da cena teatral contemporânea e questões pessoais e profissionais das artistas e atrizes trans na América Latina.

Márcia Dailyn Raphael Garcia e Márcia Dailyn na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado, sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Annelize Tozetto – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Afinal, ao ter como protagonista uma artista trans que é interpretada por Márcia Dailyn, primeira bailarina transexual do Theatro Municipal de São Paulo, musa do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta e atual diva da Praça Roosevelt, a obra se vincula aos debates atuais sobre a relação entre representação artística e representatividade social; ata as pontas da vida e morte das pessoas trans no Brasil e reconhece o valor profissional delas nas artes também, ou melhor, ainda quando vivas.

Quando a peça termina, aplaudimos simultaneamente a memória póstuma de Phedra D. Córdoba e a atuação e profissionalismo vivos de Márcia Dailyn. Coisas que rituais e a arte da representação teatral permitem.

*Mariana Queen Nwabasili é mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela USP, onde também se graduou em Jornalismo. Pesquisadora de relações, representações, recepções e identidades raciais e de gênero no audiovisual, já participou como jurada, curadora ou debatedora de festivais como Kinoforum, Mostra Melhores Minutos e É Tudo Verdade.

Márcia Dailyn na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado, sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Annelize Tozetto – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Entrevista com Phedra
Espaço dos Satyros Um – Praça Franklin Roosevelt, 214, Consolação, SP, tel. 11 3258-6345. Segunda, 21h. Até 2/9/2019 (não haverá sessão dia 26/8). R$ 40 e R$ 20. 50 min. 14 anos.

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes, Risadaria e Aplauso Brasil. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas do Brasil na categoria Cultura em Mídia Eletrônica pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.