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Crítica: Entrevista com Phedra faz fábula da vida ordinária

Miguel Arcanjo Prado

19/08/2019 07h00

A atriz Márcia Dailyn na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Por José Simões
Crítico convidado*
Fotos Bob Sousa

O sorocabano Robson Catalunha e o argentino Juan Manuel Tellategui assinam a direção do espetáculo "Entrevista com Phera", de Miguel Arcanjo, em cartaz às segundas-feiras, no Espaço dos Satyros, na cidade de São Paulo. Na sinopse do programa da peça temos:

"Na peça, baseada em fatos reais, a grande diva cubana do Satyros e do teatro brasileiro, Phedra D. Córdoba, recebe o jornalista Miguel Arcanjo em seu lendário apartamento na praça Roosevelt, onde vive com o gato Primo Bianco, para uma inesquecível entrevista sobre sua trajetória nos palcos da América Latina."

Márcia Dailyn na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Me assusto quando leio nas sinopses palavras como: grande, lendário, inesquecível ou outros superlativos. Um espetáculo teatral é uma obra para além da recepção ou percepção específica de um grupo ou de um dado conjunto de opiniões específicas, deve dialogar com as mais diferentes níveis de percepção e recepção.

Teatro para mim é comunicação. Troca. É bem verdade, que a afirmação pode provocar uma boa discussão teórica. Há aqueles que argumentam que o teatro não é um processo comunicacional. Mas esse é outro assunto.

Os elementos que estão no "antes" do espetáculo como fotos, programas, etc, são importantes para dar pistas ao espectador acerca do que será vivido. Aguçam o imaginário.

Os atores Raphael Garcia e Márcia Dailyn na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Logo nas primeiras cenas a atriz Márcia Dailyn, que interpreta Phedra, nos mostra que não é necessário que você conheça a história real, para vivenciar a fábula que será desenhada na peça.

Ao longo do espetáculo se compreende que Phedra fez opções e, como se diz no popular " pagou à vista" por elas. Não há nenhum romantismo nisso. Phedra nasceu em Cuba, homem. Enfrentou preconceitos e viajou pelo mundo. Chegou ao Brasil e, aqui, nasceu Phedra D. Córdoba. Sua carreira foi do ápice às dificuldades. Nesse percurso se encontrou com a Cia. de Teatro Satyros, na praça Roosevelt, e se reinventou com eles, naquele espaço, naquele palco. Uma artista carregada de histórias, de humor e de riscos.

Os atores Márcia Dailyn e Raphael Garcia na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Os atores Márcia Dailyn (Phedra D. Córdoba) e Raphael Garcia (Miguel Arcanjo) constroem personagens com identidade próprias. Não são caricaturas do real. Tem espessura, coerência gestual e o devido distanciamento para não cair na armadilha da imitação do real. É tênue esta linha. Por vezes, ao longo da peça, algo escapa e a memória do real quer surgir em cena, principalmente, no excesso.

A encenação de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui é delicada, poética e feita em camadas, com apoio na iluminação, e centrada na presença e no trabalho dos atores.

A proposta das personagens de modo não mimético ao real é o que potencializa a fábula para o espectador. Permite que se entre na história e dialogue com ela, a partir do seu repertório, construindo a personagem Phedra.

O jogo proposto pela direção entre os atores tem ritmo e boas soluções que instigam o espectador a querer saber mais. Alguns senões estão relacionados muitas vezes à necessidade de se reafirmar que a "história é verdadeira". Isso, por vezes, fragiliza o ritmo da encenação. Há, também, a questão do final do espetáculo que confunde o espectador numa sequencia semelhantes de ações.

O ator Raphael Garcia na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo tomou como ponto de partida para a escrita dramatúrgica a sua experiência – uma entrevista – e a partir daí construiu um texto de modo fabular, distanciando-se do relato memorial, com boas cenas e diálogos ágeis, deixando à mostra o comportamento e as várias facetas de Phedra: egoísmo, ingenuidade, vaidade, entre muitas outras. O viver lancinante e permeado de excessos de muitos artistas.

Miguel Arcanjo fez fábula da vida ordinária. Nos conta a história de uma pessoa que enfrentou a vida de peito aberto, apostou e viveu amores e as dores das suas escolhas. Não fez drama. Fez teatro.

É certo que o espetáculo, para as pessoas que conheceram ou conviveram com Phedra, potencializa outras referencias, afetos e inclusive reações "distintas" durante a apresentação. É visível a emoção diferenciada destas pessoas ao final do espetáculo.

A atriz Márcia Dailyn na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Todavia, ao meu lado, estavam sentados três jovens que sequer sabiam quem foi "a grande, inesquecível e lendária" Phedra, nem mesmo frequentam a Praça Roosevelt. A conversa com eles após o espetáculo foi reveladora em muitos sentidos. A ausência das referências potencializou outras leituras. Em cena personagens e conflitos universais.

A tragédia e a sátira são irmãs e estão sempre de acordo; consideradas ao mesmo tempo recebem o nome de verdade.– Fiodor Dostoievski

Márcia Dailyn na peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo UOL

 

Ao terminar o espetáculo (para aqueles que não conhecem Phedra) fica a vontade de conhecer, de saber mais acerca da vida de Phedra D. Córdoba.

Essa talvez tenha sido esta a homenagem que Robson Catalunha e Miguel Arcanjo, amigos de Phedra, tenham conseguido colocar em cena – a sedução da curiosidade. É bonito.

Vale a pena ir ao Satyros e conferir este trabalho.

*Jose Simões de Almeida Junior é doutor em Artes pela USP, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Artes Cênicas pela Unicamp e pós-doutor em Sociologia do Teatro pela Universidade de Coimbra, em Portugal. Professor e pesquisador das relações entre teatro, cidade e espaço. Atualmente, escreve no coletivo Terceira Margem, no qual esta crítica foi publicada originalmente.

Os atores Raphael Garcia e Márcia Dailyn em cena da peça "Entrevista com Phedra", de Miguel Arcanjo Prado sob direção de Robson Catalunha e Juan Manuel Tellategui – Foto: Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo UOL

Entrevista com Phedra
Temporada: Segundas, às 21h. De 8/7 a 2/9/2019*
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$20 (meia entrada)
Duração: 50 minutos
Classificação etária: 14 anos
*Excepcionalmente, não haverá sessão no dia 26/8.

Ficha técnica:
Texto: Miguel Arcanjo Prado.
Direção: Juan Manuel Tellategui e Robson Catalunha.
Elenco: Márcia Dailyn (Phedra D. Córdoba) e Raphael Garcia (Miguel Arcanjo).
Direção de produção: Gustavo Ferreira.
Realização: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez – Os Satyros.
Figurino e visagismo: Walério Araújo.
Cenografia: Robson Catalunha.
Iluminação: Diego Ribeiro e Rodolfo García Vázquez.
Sonoplastia: Juan Manuel Tellategui.
Arte visual: Henrique Mello.
Cenotécnico: Carlos Orelha.
Acessórios: Lavish by Tricia Milaneze.
Perucas: Divina Núbia.
Castanholas: Sissy Girl e Bene Reis.
Palco dos Bonecos: Luís Maurício.
Fotografia: Annelize Tozetto, Bob Sousa, Bruno Poletti, Edson Lopes Jr. e Felipe Margarido.
Vídeo: Andradina Azevedo e Dida Andrade.
Operação de som: Dennys Leite.
Operação de luz: Laysa Alencar.
Assistente de produção: Elisa Barboza.
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes.
Apoio: A Casa do Porco Bar, Bar da Dona Onça e Hot Pork – Janaina Rueda e Jefferson Rueda; Frango com Tudo, Rede Biroska – Lilian Gonçalves, Consulado de Cuba/SP, Consulado da Argentina/SP e Translúdica.

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes, Risadaria e Aplauso Brasil. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas do Brasil na categoria Cultura em Mídia Eletrônica pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

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