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Dia vira noite: Brasil está gostando de ser suicida, e isso é terrível

Miguel Arcanjo Prado

22/08/2019 08h06

Céu fica escuro em São Paulo pouco depois das 15h na última segunda (19): Brasil está gostando de ser suicida; e isso é terrível – Foto: Reprodução/Twitter – UOL

"Mato queimou. Fogo apagou. O céu escureceu. Vem de lá, lambuzada no breu" (Casa Aberta, música de Chico Amaral e Flávio Henrique)

Foi igual a um filme apocalíptico. São Paulo viu o dia virar noite. Assustada e descrente, a população da maior cidade do país olhou repetidas vezes para o relógio ao ver a escuridão se impor no meio da tarde. Não estávamos loucos. Realmente parecia não fazer sentido estar escuro pouco depois das 15h. Entretanto, havia um terrível sentido.

Mas, tão impressionante quanto o céu ficar preto, como bem definiu a colega colunista do UOL Luciana Bugni, foi o pouco impacto que isso teve na vida cotidiana da metrópole. Mesmo com o dia transformado rapidamente em noite, os paulistanos seguiram suas costumeiras vidas apressadas, no afã de ganhar o pão para sobreviver, prioridade absoluta nestes tempos de trevas.

Cientistas, climatólogos e meteorologistas que foram consultados deram a explicação — mesmo que ouvir cientistas especializados seja algo cada vez mais raro em nosso Brasil de achismo arrogante.

O terrível fenômeno foi uma reação da natureza à uma ação do homem: a queimada da Floresta Amazônica, que trouxe a São Paulo nuvens pretas repletas de poluentes e intransponíveis pela luz do sol, o que fez lembrar a espessa camada de nuvens que, diz a teoria, extinguiu os dinossauros milhares de anos atrás.

O chamado Pulmão do Mundo arde nos últimos tempos como nunca antes ardeu na história deste país, fruto de uma insaciável ganância, irresponsável e suicida. Esta comprova o desprezo com a natureza de quem se acha acima de tudo e de todos.

Só que tal atitude pode provocar a morte da população, seja por causa da poluição repleta de toxinas químicas cada vez maiores no ar ou pelo envenenamento via agrotóxicos que jogam e ainda vão despejar indiscriminadamente nas plantações que fizerem onde antes era floresta.

As pessoas só vão acordar quando verem um familiar amado morrer? Ou sequer vão entender o que provocou essa morte, cegadas que estão pelo ódio que jorra por aí diariamente?

Também chama a atenção o diminuto espaço que o fenômeno ocupou na televisão aberta, que, não custa lembrar, é uma concessão pública e deveria prestar serviço e defender a sobrevivência de nossa espécie e não apenas ao agronegócio.

Em qualquer país civilizado haveria tido inúmeras reportagens especiais e programas com debates de cientistas especializados, analisando minuciosamente o dia de trevas e a destruição da natureza em curso em nosso país. Mas, não. Em boa parte dos casos, a coisa não foi tratada como uma curiosidade ou até mesmo usada de forma partidarizada.

Pelo jeito, o Brasil está gostando de ser suicida. E isso é terrível.

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes, Risadaria e Aplauso Brasil. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas do Brasil na categoria Cultura em Mídia Eletrônica pelo Prêmio Comunique-se.

Sobre o blog

O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.