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Conheça Marcos Fábio de Faria, dramaturgo que é destaque com Madame Satã

Miguel Arcanjo Prado

07/09/2019 13h00

O dramaturgo mineiro Marcos Fábio de Faria no Teatro Jaraguá, em São Paulo, onde é encenado há dois meses com sucesso o musical Madame Satã, escrito por ele ao lado de Rodrigo Jerônimo: projeção nacional para sua dramaturgia – Foto: Bruno Poletti – Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

"Mocambeiro é um distrito de Matozinhos", explica Marcos Fábio de Faria, nome de destaque na nova dramaturgia brasileira. Ao lado de Rodrigo Jerônimo, o mineiro é o autor de "Madame Satã – Um Musical Brasileiro", sucesso nacional de público e de crítica, espetáculo indicado ao Prêmio Aplauso Brasil como musical do ano e que faz suas últimas sessões a preço promocional de R$ 15 neste sábado (7), 21h, e domingo (8), 19h no Teatro Jaraguá (r. Martins Fontes, 71), em São Paulo, onde cumpriu temporada de dois meses inclusive com participação do músico Djonga como protagonista nesta semana. Mas, voltemos a Mocambeiro.

"Sou da roça", brinca Marcos Fábio, durante entrevista exclusiva a Miguel Arcanjo realizada no Parque Água Branca, lugar repleto de árvores, galinhas e patos em pleno frenesi da capital paulista, onde se instaura uma atmosfera que remete ao lugar que o forjou. "Mocambeiro é um lugar pequeno, mas tinha uma biblioteca pública", recorda. "Li todos os livros que havia naquela estante e, quando a biblioteca fechou, herdei os livros", conta, com um brilho no olhar.

A partir daí, Marcos passou a trocar obras antigas por novas aventuras literárias em um sebo da cidade vizinha Pedro Leopoldo. Sempre com o incentivo da mãe, a dona de casa Maria Rosa Cardoso, e do pai, o caminhoneiro André Luiz Teodoro Faria. Foi da mãe que Marcos herdou o talento para as palavras. Mas, do outro lado da família, sua avó paterna, Francisca, que era casada com o fabricante de caixões Afonso, costumava dizer: "Você tem de ser duas coisas na vida, ou lido ou corrido". E ela estava coberta de razão. Tanto que Marcos resolveu juntar as duas coisas em sua vida.

A literatura lhe deu amplitude no olhar para o universo ao seu redor. Percebeu que sou local era universal. "Mocambeiro é igual a Macondo", define, citando a cidadezinha do romance "Cem Anos de Solidão", clássico latino-americano do colombiano Gabriel García Márquez. Aprendeu desde cedo que o tal do realismo fantástico, na América Latina (e no interior de Minas), é realismo mesmo. Naquela época, tomou gosto pela escrita, coisa que lhe acompanha até hoje: "Escrevo todos os dias", confessa.

O gosto por contar histórias foi a vizinha Maria de Nicha quem despertou. "Ela era uma senhora do bairro que contava histórias para as crianças, ouvia, encantado". Segundo de três irmãos — além dele, há também Joice e Maicon —, Marcos Fábio desde cedo conheceu a lida. "Trabalhava na lavoura até 2002", recorda a vida já distante de sua realidade hoje, mestre em Letras pela UFMG e professor universitário concursado na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e atualmente doutorando no Cefet-MG prestes a viajar para a Europa, onde fará parte da pesquisa na Universidade de Barcelona.

A primeira saída da sua Macondo-Mocambeiro foi para fazer colégio técnico em meio ambiente em Sete Lagoas, outra cidade vizinha: "Ia de ônibus da Prefeitura". Por essa época, apareceu uma novidade no bairro: Valéria Diniz, artista plástica e professora de teatro que revolucionou a cabeça das crianças de Mocambeiro, trazendo novas realidades possíveis. Marcos Fábio mergulhou por completo naquela aventura de ser outras pessoas, viver outras histórias. "Ela era à frente do mundo e foi fundamental em minha vida", avalia. Nesse tempo, ainda se aventurando como ator, ficou ainda mais próximo de dois irmãos que seriam seus companheiros artísticos de uma vida inteira e de pesquisa sobre o teatro negro: a hoje cantora e atriz Bia Nogueira e o atualmente músico, ator e diretor de teatro Rodrigo Jerônimo.

Marcos Fábio de Faria (à direita) posa com os amigos artistas Bia Nogueira e Rodrigo Jerônimo: trio nascido em Matozinhos (MG) ajudou a construir o sucesso nacional do musical Madame Satã – Foto: Bruno Poletti – Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

A novidade impôs novos ares. "Em 2003 já estava fazendo circo no sinal de trânsito em Belo Horizonte", diz. A capital mineira trouxe outras possibilidades não só para Marcos Fábio como para o trio. "Bia foi fazer geografia na UFMG, o Rodrigo entrou em biblioteconomia, e eu, em Letras, onde estudei português e alemão", conta. Na Faculdade de Letras da UFMG, um novo mundo surgiu, inclusive possibilidades internacionais. "Fui fazer um intercâmbio de um ano na Alemanha. Lá, acabei virando curador do Festival dos Cincos Sentidos e levei a Bia e o Rodrigo para se apresentarem lá. Foi a primeira viagem internacional de todo mundo", lembra, satisfeito.

Na volta ao Brasil, Marcos já não era mais o mesmo. "Voltar foi uma loucura, é muito louco essa experiência de morar em outro país, outra realidade completamente diferente da sua e, de repente, retornar. Estava sem grana, meio que em crise, mas acabei conseguindo uma bolsa no IEAT (Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares) na UFMG e voltando a viver na moradia universitária", recorda.

Ao fim do curso, emendou o mestrado em literatura. Nessa época, Bia e Rodrigo já estavam atuantes no Grupo dos Dez, companhia teatral sob comando do lendário diretor João das Neves e de sua mulher, a cantora Titane. "Como escrevia bem, ajudava a fazer os projetos do grupo, até que um dia o Mauricio Tizumba [grande ator e cantor mineiro] precisava de uma dramaturgia. Foi assim que minhas primeiras duas peças foram encenadas em 2013, 'Muñeca' e 'Clara Negra'", revela. De cara, as obras foram um sucesso. Enquanto isso, para ganhar a vida, deu aula em escola particular, foi professor substituto no Cefet até que conseguiu a sonhada estabilidade financeira: passou no concurso de professor da UFVJM. A entrada no serviço público universitário se deu justamente com o processo de criação de "Madame Satã", peça que deu projeção nacional a seu trabalho com a história do lendário boêmio carioca e negro.

Irmãos na arte: Rodrigo Jerônimo e Marcos Fábio de Faria, responsáveis pela dramaturgia de Madame Satã – Um Musical Brasileiro: texto acaba de ser indicado no processo seletivo do Teatro Universitário da UFMG – Foto: Bruno Poletti – Divulgação – @miguel.arcanjo UOL

"O 'Madame' estreou em 2015 no Galpão Cine-Horto e lotou todos os dias. Foi um processo coletivo de criação, em diálogo com o João das Neves, o Rodrigo Jerônimo, a Bia Nogueira", explica. Nesse meio tempo, Marcos acumulou não só a função de dramaturgo como também a de produtor. "Mandava o projeto da peça para festivais, editais, aquela coisa, né?", lembra, com um sorriso. A temporada em São Paulo em 2017 na Caixa Cultural da Sé foi um verdadeiro furacão, fazendo o musical explodir nacionalmente na mídia, com filas intermináveis e todas as sessões esgotadas, o que abriu portas para a consagração do Grupo dos Dez junto à crítica paulistana.

A tarde começa a cair no Parque Água Branca e a conversa parte para sua reta final. Dramaturgo referendado com seis espetáculos encenados — o texto de "Madame Satã" está indicado no processo seletivo do Teatro Universitário da UFMG —, dois em processo e "pelo menos mais cinco na gaveta", Marcos Fábio de Faria revela seu desejo íntimo. "Meu sonho mesmo é ser escritor", confessa. "Tenho um monte de escritos guardados, romance, contos, poesias", adianta.

Ele conta que justamente a peça que é seu xodó ainda não foi montada. "É 'O Taxidermista', que desenvolvi durante oficina em 2008 em BH com o Alberto Guzik [jornalista, ator e crítico teatral, que morreu em 2010]", conta. Marcos lembra que foi Guzik quem promoveu leitura de dois textos seus no Festival Satyrianas, de São Paulo, em 2009. E, conclui o papo na tarde de domingo, com uma análise sobre o próprio fazer artístico: "Foi com o Guzik que eu descobri o que queria ser no teatro. Ele me contou que toda história que você conta é importante, mesma lição que, intuitivamente, eu aprendi com dona Maria de Nicha. Foi com o Guzik que percebi que eu não era ator, mas, sim, um escritor, um dramaturgo", finaliza.

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Sobre o autor

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. É crítico da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), da qual foi vice-presidente. Mineiro de Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. Passou por O Pasquim 21, TV UFMG, Rádio UFMG Educativa, TV Globo Minas, Curso Abril de Jornalismo, Superinteressante, Contigo!, Folha de S.Paulo, Agora, Uma, R7, Record, Record News, Rede TV!, Claudia, Band, Gazeta e Rede Brasil. É jurado dos prêmios APCA, do Humor, Bibi Ferreira, Sesc Melhores Filmes, Risadaria e Aplauso Brasil. Foi eleito duas vezes um dos dez melhores jornalistas do Brasil na categoria Cultura em Mídia Eletrônica pelo Prêmio Comunique-se.

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O Blog do Arcanjo mostra o que acontece e quem é destaque nos palcos, telas, salas e bastidores do Entretenimento e da Cultura de um jeito leve e inteligente.